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Out21

Maria do Rosário Pedreira

Três minutos mais tarde, os convidados agrupam-se no salão e na sala de estar e os doces são servidos. O pastor Pringsheim, do alto da sua golilha engomada, envergando uma sotaina comprida de onde espreitam as botas largas e engraxadas, está sentado entre os convivas, beberricando as natas frias que coroam o chocolate quente e conversando, com o rosto transfigurado, de uma maneira muito natural e espontânea, o que, ao contrário do seu discurso clerical, surte um efeito notável nos seus interlocutores. Cada um dos seus gestos parece querer dizer: Vejam, também eu posso esquecer o sacerdote que há em mim e ser um homem mundano, alegre e inofensivo!

Os Buddenbrook, de Thomas Mann, numa tradução de Gilda Lopes Encarnação