Extraídos do livro O duplo refletido (Folhas de Relva Edições)
Lorraine Ramos Assis
Diziam eles que minha escultura labial era sardônica
Vívida no asfalto e das conversas em aplicativos
Enquanto todo o meu corpo estava na devida persistência da
Trêmula coberta
O delírio da negação da siamesa arrastava-se em rumos
Do meu oculto limpar
Rituais que lembram o seio descuidado
Negação e pedidos de socorros aos nomes com T e G
Recriminam quem algum dia a ajudou a não se isolar
Caminhando com roupas casuais e a boca
Cheia de sujeira
Chamarei ela mais uma vez para ter uma segunda chance
E meu corpo irá se contorcer por causa dos latidos
(travessia de oito meses; caminhe, caminhe, mas não vá
Para seu mestre limpador de suas roupas)
O nariz e o paladar entopem o bueiro
Na laranjeira
Estou aqui, pois sou igual a ti
(remetemos a presença da outra como ideal alçado
E como todo ideal, ele deve ser mantido
Vivo)
*
Vislumbrei uma mulher de folhas soltas
Formadas por seis pétalas expressas por pedras de gelo, amei
Formadas por seis pétalas expressas por pedras de gelo, amei
Sua voz,
Madeixas convertidas em anilina, foram o pisar na dança de
Fliperama
Em minha assumida participação talvez era o aguçado, cheiro
E umidez artesanal no colchonete, ela era molhada e cheiro,
Pregada
Uma enérgica, agressiva e entretida, dor abraçada enquanto
Melhor amigo como
Esboçava a face na impunidade de seus atos
As
Duas
Anticrise e eu olhando o dinheiro na solidão
Do tóxico o sistema reproduz os lábios do corselet preto em
Foro,
Um intercâmbio
Nitidamente ameaçador,
E revirava os olhos evitando o sol e ventos fortes, pegando
O vaso entardecido para diminuição de meu tesão
Que apercebido da afeição da obra dupla
Quase a neguei por medo da intimidade, mas a musculatura
Gritando
Não aguentei
Até perceber que, abrindo o critério de escolha
As duas eram uma única só
Em anagrama incompleto
*
Conferiram se havia contornos mais precisos em minhas
Sobrancelhas feitas pelo instrumento
Afinal, tinha que ficar bonita
Porém
Sangrei como de costume
Segundo as tecelãs da mamãe, deveria ter a mão rígida,
Sempre harmoniosa
Na forma de uma pluma dançante
Minha cabeça era giratória equivalente a cartucho de setenta
E sete
O sentido pessoal destruía a máscara
Teatral
Lançada como um foguete katyusha
Em múltiplas direções
Indissolúvel e
Cortante
As ferrugens
Eram iguais a
Travessia
Um labirinto
Privacidade inflexível
Ausências de cortinas
Um sistema fechado sobre si mesma
Os choros
De um protótipo de ser humano
Percebeu o sangue recaído em meu rosto
Estendido em linhas assimétricas das quais o desejo
Sentido da felicidade
Fazia um som alto como o dele
Ser descortinada era um sentimento vasto como um foguete
Lançado
Lento
Preciso
Harmonicamente assimétrico
*
Os olhos, entretanto,
Em diferentes aberturas
Tornam-me a conhecida e a estrangeira
Em um tempo em que estranhar o familiar
Nas profundidades róseas
Me é vício
Sujeito objeto
Paredes
Vista única de buscar a si própria
Nunca saciada
Revela-se contraída
Do que se aproxima
Eu, a imagem agente
Produtora de efeitos
Retorno ao anel
E babando em dedos trazidos do mundo todo
Digo que sou a outra
A conhecida
A estrangeira
Deslizando na infância da humanidade criada por falsos
Profetas
Lorraine Ramos Assis (1996) é escritora, crítica literária e editora. Foi publicada em diversas revistas/jornais nacionais e estrangeiros, tais como Jornal Cândido, Cult revista, Le Monde Diplomatique, Granuja (México) e Incomunidade (Portugal). Colabora para São Paulo Review e Revista Caliban, além de integrar o corpo de poetas do portal Faziapoesia. Pesquisa a marginalização feminina em obras ficcionais/biográficas. Foi finalista do Prêmio Off Flip 2023 na categoria Poesia. O duplo refletido (Folhas de relva edições/2023) é seu primeiro livro.