Não acredito em pressentimentos, nem agoiros

Me assustam. Não evito a calúnia

Ou o veneno. Não há mortes sobre a terra.

Todos são imortais. Tudo é imortal. Não há

Que ter medo da morte aos sete

Nem aos setenta. O real e a luz

Existem, mas não a morte ou a treva.

Viemos hoje à enseada,

E o cardume da imortalidade veio

Quando eu puxava as redes.

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Agora o verão se foi
E poderia nunca ter vindo.
No sol está quente. Mas tem de haver mais.

Tudo aconteceu,
Tudo caiu em minhas mãos
Como uma folha de cinco pontas,
Mas tem de haver mais.

A vida me recolheu
À segurança de suas asas,
Minha sorte nunca falhou,
Mas tem de haver mais.

Nem uma folha queimada,
Nem um graveto partido.
Claro como um vidro é o dia,
Mas tem de haver mais.

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Cresce a névoa da vista – esse poder,
Duas luras em diamante invisíveis;
Surdo pela tempestade de outrora
E o bafo da casa de meu pai;
Nós cegos numa trança de músculos
Como bois velhos no campo arado;
E na noite não brilham mais
As asas do meu dorso

Sou um círio consumido na festa

Se ao crepúsculo recolhem o meu cerúmen

Esta pagina dir-vos-á o segredo

Do choro e do orgulho

E como repartir a ultima terça

De acontecimentos, suave morte

Então, sob o casual alpendre

Labareda, por assim dizer, de póstuma luz.    

   

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Cada momento passado juntos

Era uma celebração, uma Epifania,

Nós os dois sozinhos no mundo.

Tu, tão audaz, mais leve que uma asa,

Descias numa vertigem a escada

A dois e dois, arrastando-me

Através de húmidos lilases, aos teus domínios

Do outro lado, passando o espelho.
Pela noite concedias-me o favor,
Abriam-se as portas do altar
E a nossa nudez iluminava o escuro
À medida que genufletia. E ao acordar
Eu diria “Abençoada sejas!”
Sabendo como pretenciosa era a benção:
Dormias, os lilases tombavam da mesa
Para tocar-te as pálpebras num universo de azul,
E tu recebias esse sinal sobre as pálpebras
Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente.
Rios palpitantes
por dentro do cristal,
A montanha assomando na bruma, mar enfurecido,
E tu com a bola de cristal nas mãos,
Sentada num trono enquanto domes,
— Deus do céu! — tu pertences-me.
Acordas para transfigurar
As palavras de todos os dias,
E o teu discorrer transbordante
De poder revela na palavra “tu”
o seu novo sentido: significa “rei”.
Simples objectos transfigurados,
Tudo — a bacia, o jarro —, tudo
Uma vez de sentinela entre nós
Se torna límpido, laminar e firme.
Íamos,
sem saber para onde,
Perseguidos por miragens de cidades
Derrotadas construídas no milagre,
Hortelã pimenta aos nossos pés,
As aves acompanhando-nos o voo,
E no rio os peixes á procura da nascente;
O céu, a nós se abrindo.
Porque o destino
seguia-nos o rastro
Como um louco com uma navalha na mão