Conheci este livro na Bahia, nos anos 1970. Leopoldo Lima, de Ribeirão Preto (SP), é o que eu chamo de “artista fora-de-esquadro”, ou seja, um sujeito que não se encaixa em definições ou escolas. O pessoal que o admirava dizia ser um “maluco beleza” que fazia uns desenhos e xilogravuras estranhas, meio surrealistas. Diziam que o filho mais novo dele se chamava Ôi, ou melhor, esse era o nome provisório que lhe tinha sido dado até que ele crescesse e escolhesse um nome para si próprio. O livro tem como título: 729 o varal biográfico embananado, ou pelo menos é isto que está escrito na capa, junto ao nome do autor, tudo em caixa-baixa (letras minúsculas). O exemplar que tenho hoje (comprado no Sebo Cultural de Heriberto) tem uma dedicatória do autor, para um tal de “Célio”, com um desenho e a data de 1970. 729 é o número da casa onde o artista morava (ou mora) em Ribeirão Preto, como se percebe pelas numerosas fotos no início e no fim do livro.

Leopoldo Lima faz um tipo de xilogravura cheia de traços retos ou sinuosos onde nenhum trecho da imagem é deixado em branco; lembra muito o estilo de cortar do cordelista e gravador Abraão Batista. Algumas imagens são recorrentes: crianças escuras, magras, fantasmagóricas; casas labirínticas; árvores retorcidas. Algumas fotos do interior de sua casa dão a idéia de uma mente atormentada e criativa, mas ao mesmo tempo pensamos: “como é que uma família com crianças mora num lugar doido como este?”. Um quadro intitulado “eu e voce” mostra um infinito corredor de tábuas, e em primeiro plano um sapato de homem sobre um sapato de mulher.

O texto em si são 60 páginas de linhas corridas, sem pontuação, numa fonte em negrito e itálico (mas legível), sem dar muita atenção à presença do til e de outros acentos. É um monólogo interior mas sem pretensões literárias, e neste aspecto lembra um pouco outro livro excêntrico de outro autor fora-de-esquadro, o lendário José Américo II, ou Zé Américo da Camionete, que em 1976 publicou em Campina suas memórias sob o espantoso título de Uma vitória dentro de uma derrota que não tive. Esta derrota foi a vitória do meu livro. Leopoldo Lima enfileira memórias, divagações, comentários sobre seus quadros, filosofias de vida, tudo isto sem recorrer sequer a um misericordioso ponto-parágrafo. Lembra as Galáxias de Haroldo de Campos ou o Catatau de Leminski, com a diferença que estes dois tentavam fazer Literatura, e Leopoldo faz um jorro de lava fumegante brotando pelas comissuras da mente.

Diz ele à página 42: “com este negocio do pessoal passar as maos nos quadros fiz um de um homem bebado caiu sentado com os pes para a frente descalço e no lugar havia uma garrafa de bebida quebrada sangravalhe o pe entao coloquei um caco de vidro cortante onde machucou as pessoas passavam a mao para ver se era caco de vidro pois parecia muito e de fato era cortavam a mao e coloriam mais o quadro”. Cuidado com a Arte, ela morde.