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Mai21

Maria do Rosário Pedreira

No último fim-de-semana assisti (embora não presencialmente) a um excelente painel do festival cultural alfacinha 5L, conduzido pela excelente jornalista (e também escritora) Isabel Lucas e com a presença dos autores Lídia Jorge, Isabel Rio Novo e Itamar Vieira Júnior. O assunto era, no fundo, a relação entre a história e a ficção, sendo que todos os intervenientes no debate têm livros publicados que tocam de perto factos ou episódios históricos, desde a Guerra Colonial, o 25 de Abril, a escravatura, a reforma agrária, a vaga de tuberculose no início do século passado, o surgimento do impressionismo ou a biografia do pintor e mecenas Gustave Caillebotte. Sob o nome Tecido da História, poderíamos esperar nessa sessão escritores realmente vocacionados para o romance histórico enquanto retrato de época ou registo de acontecimento épico. Curiosamente, foram autores que não estão minimamente associados a este género literário os convidados a debruçar-se sobre a questão. E que delícia ouvi-los, cada um à sua maneira! Pois ficou claro que, ao contrário da História, que celebra o colectivo e o universal, a Ficção vai à procura do indivíduo, do pessoal, do herói tantas vezes anónimo, para tratar as sujectividades de todos aqueles que nos manuais de História desaparecem sob o manto das mais «objectivas» multidões. Foi tão boa aquela hora de sábado no Museu da Farmácia vista e ouvida aqui de casa... Sabe mesmo bem escutar quem tem realmente coisas para dizer. Obrigada aos quatro. (Para quem queira conhecer alguns dos livros referidos: A Costa dos Murmúrios e os Memoráveis (Lídia Jorge); Rua de Paris em Dia de Chuva e A Febre das Almas Sensíveis (Isabel Rio Novo); Torto Arado (Itamar Vieira Junior).