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Nunca pôde o ciúme ser descrito com tanta concisão, com tanta clareza, com tanta objetividade e, simultaneamente, ramificando-se por todos os seus poros
Bruno Pernambuco
“A incompreensão é a única forma sincera de elogio”, diz uma das muitas frases que pode ou não ser de Oscar Wilde. Uma dose de incompreensão sincera no olhar é certamente necessária para ler uma transformação constante de forma como é A Estrutura da Bolha de Sabão, um dos livros de contos mais célebres de Lygia Fagundes Telles. A obra é um exercício permanente da mudança de pele, que, nessa sua proposta, permite uma lapidação precisa do verso e da forma da narrativa a partir de muitos ângulos, com movimentos e intensidades distintos, expandindo as possibilidades dessa técnica de ourivesaria.
O conto-título do livro é uma obra-prima. Nunca pôde o ciúme ser descrito com tanta concisão, com tanta clareza, com tanta objetividade e, simultaneamente, ramificando-se por todos os seus poros.
Esse conto perfeito, perfeito na sua lapidação, na sua forma, certamente poderia ser descrito como uma joia rara- mas, nessa definição, ainda está em uma categoria especial, daquela das pedras trabalhadas sobre o calor da emoção, em que se pode ver o magma vivo, circulando por baixo do âmbar petrificado que é o relato fechado em cinco páginas. É uma obra forjada na lava quente do sentimento, e que elabora tão bem essa matéria que a permite surgir, simplesmente, na forma de uma sinusite.
Peço quase desculpas ao entrar, aqui, e assim chatear o público, em uma nota pessoal, mas não digo nada com verdade, a respeito do conto, se não admito que, como escritor, A Estrutura da Bolha de Sabão é para mim como um modelo de perfeição- não como algo estático, imaculado na sua perfeição, mas como algo que continuamente me ensina, a cada releitura, que mais do que tudo me surpreende, sempre com alguma minúcia que antes fora despercebida, e que serve para novamente me arrebatar com sua conclusão- aquela tão simples, tão precisa, que só posso desejar a ela sempre chegar nos momentos em que me sinto consciente, e em que me sinto conversando comigo mesmo, refletindo sobre o meu trabalho.
Agora, não peço escusa nenhuma, nem qualquer licença, ao dizer do quanto O Espartilho fala comigo, pessoalmente. Também primoroso na sua forma- mais alongada, de um relato pessoal que às vezes se perde nas invenções da memória, cheio de elipses temporais- esse relato de formação, delicado e intenso, é, também, interminável, sempre podendo ser reaprendida a sua lição, sempre existindo um novo convite para dentro da noite. O trabalho tão maravilhosamente realizado nessas múltiplas, porém unas, identidades dA Estrutura da Bolha de Sabão é o de dar materialidade às mais diversas formas de personagens, e a lembrança do espartilho, nesse caso, é de fazer entender como em meio a essas narrativas mais ou menos inspiradas na vida há, também, algo que é criado a partir de um personagem interno, que diretamente fala com ele, que abre a janela e convida essa reflexão que é, ao mesmo tempo, estar no mundo, e ocupar seu próprio espaço em meio à noite- e que faz desse conto, e desse encontro, assim como todo bom livro, inesgotáveis.
Cia. das Letras
182 páginas
Ano da edição 2010