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| Fotografia da minha autoria |
«Há um crime para resolver em nove episódios»
As conotações têm peso. E, confesso, irrita-me o pedantismo com que se encaram determinados projetos, apenas por serem nacionais. Como se aquilo que se produz em Portugal tivesse um valor diminuto. Ou, então, não fosse digno de oportunidades. Porque ainda prevalece um culto prioritário ao que vem com assinatura estrangeira. É claro que nem todos os formatos resultam. Mas isso acontece em qualquer canto do mundo. E cair no erro da generalização é condenar as representações de arte. A prova de que o nosso país transborda talento tem um nome: Sul.
A premissa é simples: «o calor abate-se na capital. E um inspetor da Judiciária investiga o aparecimento do cadáver de uma mulher no cais da Rocha Conde de Óbidos». Porém, há algo de suspeito. E rapidamente compreendemos que os episódios não se limitarão à componente policial, atendendo a que se divide por um conjunto de problemáticas - possivelmente - transversais à sociedade: o desemprego, o desespero, os casamentos falhados, as relações interpessoais, a mentira, os bancos falidos e o branqueamento de capitais. No entanto, é impossível não nos prendermos ao ambiente criminal, até porque as mortes duvidosas, praticamente inexplicáveis, são o reflexo dos valores desfragmentados. Da fraca empatia. E da necessidade de esconder a indecência e a desonestidade que afeta alguns seres humanos. Porque, para esse grupo de pessoas, vale tudo. Inclusive, matar figuras inocentes, que procuravam lutar por justiça e repor a verdade.
Esta série é o espelho de uma nação profundamente abalada por uma crise económica, tendo Lisboa como pano de fundo. E um traço curioso é que abre a porta para a conhecermos de um modo muito mais íntimo e genuíno, pois fazêmo-lo na companhia de personagens dinâmicas. Credíveis. Que se fundem como um pedaço da cidade. Descrevendo realidades que vão «desde os bairros operários de Xabregas» até ao lugar das elites, vamos desvendando os segredos escondidos na hipocrisia de quem só se interessa com a sua riqueza, independentemente dos meios utilizados para atingir determinados fins. Nos negócios por fachada. Na falsa fé. E na igreja evangelista que, neste contexto, é um ponto de passagem para um meio perigoso.
Há uma sucessão de contrastes - na luz, na abordagem, nos próprios casais que compõem o enredo. E uma riqueza sonora que nos transporta para esta viagem intensa: o rio, a buzina do cacilheiro, «o resfolegar submerso do motor do barco». Com um elenco e uma banda sonora de luxo, somos convidados a partir, embora a história nos enlace ao seu desenvolvimento. Por essa razão, assistimos, ainda, a um fenómeno maravilhoso: conhecer os locais da ação como se fossem uma personagem. E é assim que nos aproximamos e nos permitimos ser surpreendidos. Porque nada é tão evidente quando preserva inúmeras camadas.
A narrativa é forte e convoca tanto «o imaginário de filmes de Série B, como o universo literário de Manuel Vázquez Montalbán ou Rubem Fonseca». Além disso, evidenciando um ambiente sombrio, faz-nos pensar nos limites. E até que ponto podemos transpô-los. Reconstruindo a sua linha temporal, que permanecerá atual, deambulamos pelos subúrbios. E rumamos a Sul: esse pedaço de destino. De lugar utópico. Ou, simplesmente, de porto de paz, ao qual poderemos sempre regressar.
[Episódios disponíveis em RTP Play]
