meuavo
Catarina Sobral
O Meu Avô
Orfeu Negro

Depois de dois álbuns onde a reflexão sobre a linguagem e a experimentação com a sua plasticidade foram linhas de força, Catarina Sobral regressa com uma narrativa que explora outros jogos de sentido, agora assentes na categoria temporal e na sobreposição de acções.

À semelhança de Greve e Achimpa, os livros anteriores, também aqui a relação entre o texto e a imagem é absolutamente imbricada, fazendo de cada dupla página uma unidade de sentido onde as duas categorias de expressão são inseparáveis. A narrativa estrutura-se num paralelismo harmonioso que coloca de um lado o quotidiano do avô de quem narra e do outro os dias do Dr. Sebastião, um vizinho muito atarefado. Enquanto o Dr. Sebastião se afadiga no escritório, ou come uma pizza apressada, o avô desta história frequenta relaxantes aulas de pilates e cozinha massa al dente começando pela farinha. A justaposição dos dois pólos não se faz unicamente pelo contraste, quebrando-se essa arriscada monotonia com páginas duplas onde os cenários, ainda que pertencentes a quotidianos distintos, se contaminam, um efeito potenciado pela utilização das cores directas que se espalham entre cenários e pela partilha de alguns elementos entre ambos os lados. Não há aqui moral ou pedagogia, apenas a enumeração das actividades diárias do avô e do Dr. Sebastião, mas o facto de essa enumeração ser narrada por uma criança que parece, logicamente, mais fascinada com a boa vida do seu avô do que com a agitação stressada do vizinho faz crescer a leitura a partir de uma certa ideia epicurista de prazer. Em O Meu Avô, os dias apenas se distinguem pelo uso que das suas horas se faz, uma ideia quase revolucionária em tempos de trabalho 24 horas por dia e de pensões que ameaçam desaparecer.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no Actual/ Expresso, Março 2014)