O seu nome é o primeiro que aparece na mais longa sequência de abertura com créditos de um filme. São dez minutos do mais puro cinema, somente com alguns fragmentos de diálogo, uma trilha totalmente imagética — apenas som ambiente e ruídos. Seu nome de atriz é o único feminino e abre uma constelação de atores, como se fosse uma síntese do que ela mais soube fazer nos filmes, uma mulher de personalidade, que mescla força, fragilidade, sedução, inteligência e, principalmente, uma intensa feminilidade, em meio a muitos e variados homens. Com tudo sempre à flor da pele.
Assim era Claudia Cardinale, a atriz que nos deixou esta semana, aos 87 anos.
Na cena de abertura de Era uma vez no Oeste, de Sergio Leone, o seu nome surge antes da lenda Henry Fonda, do grande Jason Robards, do futuro astro Charles Bronson, e dos seus conterrâneos Gabriele Ferzetti e Paolo Stoppa. Na tela grande, Claudia só aparece com 20 minutos de filme, saindo do trem que chega na estação de uma cidadezinha no Oeste e que vive a expansão de mais uma ferrovia americana.
Ao colocar o rosto para fora do vagão de passageiros, com a sua pele morena emoldurada por um chapéu e um sorriso de curiosidade, Claudia Cardinale me atordoa e me resgata da realidade, ali na sala escura do antigo Cine Glamour, no centro de Osasco, cidade da Grande São Paulo. Estamos no início dos anos 1970 e fui levado ao cinema por meu irmão mais velho, Jefferson, o Jeff do meu nome, e que a gente chama carinhosamente de Tico, já que ele leva o nome do nosso pai e a mim coube apenas uma parte desse latifúndio nominal.

Ao som da genial música de Ennio Morricone, Cardinale vive Jill, viúva recente, determinada a construir uma estação ferroviária, como era o plano do marido assassinado com os seus três filhos naquela manhã de sua chegada para conhecer a família dele. Leone subverte o western tradicional, criando uma heroína feminina forte e independente. Com performance sólida que equilibra vulnerabilidade e determinação, Claudia torna-se elemento central da narrativa épica e operística do italiano. No maravilhoso final do filme, entendemos que Leone faz dela uma síntese empreendedora — para o bem e para o mal — da América, consciente de que o nome do país e do continente é mesmo feminino.
Talvez para fazer jus ao nome do cinema em que a vejo, Claudia surge com tanto glamour e apelo que, passado o impacto, começo a perceber o que depois, na maturidade, saberei compreender — sim, ela sempre é uma atriz de tantos recursos e presença magnética. Como uma verdadeira diva, nunca se intimida em viver nas telas, muitas vezes, a única fêmea em meio a um bando de machos. E se o filme é um western, ela se mostra ainda mais presente, como no também faroeste Os Profissionais, de Richard Brooks, feito dois anos antes do filme de Leone. Nele Claudia é a esposa sequestrada de um rico fazendeiro. Brooks dirige com eficiência, mas, ao contrário do mestre italiano, reduz a personagem dela a objeto de desejo masculino. A performance se mostra limitada pelas convenções de gênero — e no elenco estão Burt Lancaster, Lee Marvin, Robert Ryan, Jack Palance e Woody Strode. No fundo, o filme serve como ensaio — e em inglês — para a posterior explosão de Claudia no western de Leone.
Grandes papéis
Na maturidade, nas salas de cineclubes e na própria tela da TV, vai surgir diante de mim a mulher, a atriz, a estrela Claudia Cardinale em seus grandes papéis, dirigida por alguns dos maiores gênios da história do cinema.
Nenhum outro diretor soube lapidar o talento dela emoldurado por sua beleza natural como Luchino Visconti, que a dirige em quatro de seus principais filmes — em dois deles ela é a protagonista. O primeiro é Rocco e seus irmãos (Rocco e i suoi fratelli, 1960), em que Claudia interpreta Ginetta, uma das personagens femininas centrais do filme. Ela é o interesse amoroso de Rocco, o protagonista, feito por Alain Delon, um dos irmãos da família que emigra do Sul da Itália para Milão. Ginetta é um papel coadjuvante, mas importante na estrutura narrativa do filme. Visconti utiliza sua presença jovem e fresca para contrastar com a dureza do ambiente industrial milanês, e já temos aí um prenúncio da bem-sucedida parceria que se segue.

É em O Leopardo (Il Gattopardo, 1963) que a força de Cardinale explode na tela, entre a beleza madura de Burt Lancaster e a juventude em forma de Alain Delon. Uma obra-prima absoluta, considerado um dos grandes filmes da história do cinema e o maior de Visconti. Cardinale é Angelica, jovem burguesa que seduz o aristocrata Tancredi (Alain Delon) sob os olhares de cumplicidade do tio dele, o príncipe de Salina, papel de Lancaster. Ao fazer par com Delon, forma com ele o mais belo casal da história do cinema.
Visconti sabe se valer da beleza mediterrânea de Claudia como símbolo da nova Itália emergente, contrastando com a decadente nobreza siciliana do príncipe de Salina. Temos aqui uma performance magnética que equilibra sensualidade natural e ambição social calculada. Ainda ressoa na memória a sua gargalhada subversiva em pleno jantar aristocrático.
Cardinale incorpora a célebre frase que Tancredi diz ao príncipe: “Se vogliamo che tutto rimanga com’è, bisogna che tutto cambi!” — “Se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”. Ela representa a mudança que perpetua o poder. Sua Angelica é sedutora mas não ingênua, ardilosa mas não vulgar. Um trabalho definitivo que estabelece Cardinale como musa do cinema de autor europeu. O Leopardo ganha a Palma de Ouro em Cannes.

O filme seguinte com Visconti é quase uma sonata para violino e piano em comparação à sinfonia que é O Leopardo. Vagas Estrelas da Ursa (Vaghe stelle dell’Orsa, 1965) é um drama psicológico complexo inspirado no mito de Electra, em que Cardinale é Sandra, mulher que retorna à cidade natal de Volterra com o marido para honrar o pai judeu morto em campo de concentração nazista. Com muita ousadia, o filme é centrado na relação incestuosa entre Sandra e seu irmão Gianni (Jean Sorel). Visconti encontra aqui um expressivo adagio para explorar temas de culpa, vingança e trauma familiar.
Nunca Visconti foi tão gótico, tão solene. Cardinale nos dá mais uma interpretação corajosa e intensa, navegando por territórios psicologicamente perigosos com autoridade dramática. E a todo o momento sentimos que as “vagas estrelas da Ursa”, versos de abertura do poema Le Ricordanze do poeta italiano Giacomo Leopardi, referem-se mesmo a um desejo de revisitar um lugar de infância e a um anseio por um passado de alegrias que nunca mais voltará. O filme ganha o Leão de Ouro em Veneza.
Nove anos depois, Cardinale filma com Visconti pela última vez. Ela aparece apenas em momentos de lembrança como a falecida esposa do protagonista (Burt Lancaster) em sequências oníricas. O filme é Violência e Paixão (Gruppo di famiglia in un interno, 1974). Visconti, debilitado por derrame, dirige seu penúltimo filme de cadeira de rodas, um drama intimista sobre choque geracional, isolamento e uma alegoria política da situação italiana na década de 1970.
A breve aparição de Claudia — que nem é creditada — é quase fantasmagórica, envolta em véus, e funciona como memória idealizada de amor perdido do professor feito por Lancaster. Se a participação de Cardinale adiciona camada poética ao filme quase testamentário de Visconti, sua presença etérea contribui também para a atmosfera melancólica da obra. Como esposa de Burt, inevitável sentir, diante da tela grande e da sala escura, uma espécie de transcendência cinematográfica, que nos permite imaginar a consumação de amor entre Angelica e o príncipe de Salina. Marcando, assim, o final de uma das parcerias mais significativas do cinema italiano.
Entre Rocco e O Leopardo, Claudia nos dá uma de suas mais belas intepretações, dirigida pelo também genial Valerio Zurlini. No excepcional melodrama A moça com a Valise (La ragazza con la valigia, 1961) ela brilha como a jovem misteriosa envolvida em triângulo amoroso com dois irmãos. Zurlini dirige com sensibilidade, extraindo performance tocante da atriz. A química entre Claudia e o coastro Jacques Perrin, então com apenas 19 anos, é tão intensa e, ao mesmo tempo singela, que ali no escurinho do cinema só queremos mesmo ser Perrin.

No mesmo ano de Il Gattopardo, Claudia Cardinale é dirigida pelo genial Federico Fellini. O filme, um dos monumentos do cinema, é Oito e Meio (8½, 1963) e nele Cardinale aparece brevemente como uma das musas do protagonista Guido (Marcello Mastroianni). Sua presença etérea funciona como ideal feminino inalcançável. Embora seja papel secundário, sua beleza icônica contribui perfeitamente para o universo onírico felliniano.
Ao escolher Oito e Meio como o maior filme do cinema, Martin Scorsese destacou que a imagem de Claudia é essencial no imaginário do cineasta Guido porque é a própria imagem da ambição do artista, de sua busca por expressão. De forma metacinematográfica, Fellini cria um retrato honesto e introspectivo do bloqueio criativo, com seu uso inovador de ideias surrealistas e do fluxo de consciência.
Com participação em mais de uma centena de filmes, a atriz italiana (nascida na Tunísia) esteve em obras de outros grandes cineastas. De Mauro Bolognini a Marco Bellocchio; de Damiano Damiani a Marco Ferreri. Participou do cinema americano com Richard Brooks e Blake Edwards. Com este último fez a princesa Dahla, dona do famoso diamante cor de rosa chamado de pantera, no filme estrelado por Peter Sellers, David Niven e Capucine.

Presença no Brasil
No início da década de 1980, com mais de 40 anos, Claudia veio filmar no Brasil, em Manaus, sob a direção do alemão Werner Herzog. No lançamento do filme, o próprio cineasta disse que a presença de Cardinale em Fitzcarraldo (1982) representa um fascinante contraste com a intensidade vulcânica de Klaus Kinski. Enquanto Kinski encarna a obsessão delirante do protagonista com sua habitual ferocidade neurótica, Cardinale traz uma sofisticação que funciona como contraponto civilizatório à loucura em plena selva amazônica.
Quando lembro da visão que tive na tela do extinto Cine Astor, no Conjunto Nacional, percebo que Herzog utiliza a naturalidade magnética da atriz italiana para criar um polo de sanidade e sensualidade em meio ao caos existencial do filme e do próprio projeto. Sua Molly não é apenas a companheira de Fitzcarraldo, mas representa o elo com um mundo de prazeres terrestres que contrasta com as ambições transcendentes e autodestrutivas do personagem de Kinski. Um crítico do New York Times bem observou, na época, que “Cardinale não fica em cena tanto tempo quanto se gostaria, mas ela não só ilumina seu papel como também ilumina o Kinski”1.
O que fica, passados tantos anos e muitos filmes, e o que vejo, sempre que ouço o tema de Era uma vez no Oeste — sim, porque a trilha de Morricone para o filme de Leone é música cinematográfica —, é a própria cena com toda a emoção que senti ao assistir ao filme projetado diante dos meus 15 anos. Na sequência final, a Jill de Cardinale sai da grande casa de seu rancho porque a ferrovia finalmente chega ali, e no local será erguida a sua estação, batizada de Água Doce. Claudia, cabelos longos, presos e aloirados, vestido escuro e colo desnudo, à vista, segue em decisiva caminhada, com duas grandes jarras de água. Ela vai matar a sede dos trabalhadores que descem da locomotiva que representa a conquista de uma etapa na construção da ferrovia.
Mais uma vez, Cardinale é a única figura feminina em meio a mais de quatro dezenas de homens. A fêmea destemida fornecendo água para um bando de machos sedentos. A câmera de Leone abre para um plano geral e só aí surge o título do filme — e lembramos que ele nem aparece antes, na abertura com créditos mais longa do cinema. Com esta lembrança e diante da morte de Claudia, o desejo é pedir licença a Sergio Leone e, sobre a cena final de Era uma vez no Oeste, ao som de Morricone, colocar um novo título:
Era uma vez Claudia Cardinale.
Jeffis Carvalho é jornalista e editor de Cinema do Estado da Arte.
–
- Vincent Canby. Herzog’s “Fitzcarraldo”, a spectacle. New York Times, 10 de outubro de 1982. ↩︎