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O «Flores para Algernon» de Daniel Keyes é um dos meus livros preferidos da vida. Por isso, quando reparei que o autor tinha outro livro, ainda por cima sobre um caso verídico, decidi ler.

«The minds of Billy Milligan» conta a história real de como, no final dos anos 70 nos Estados Unidos, Billy foi preso pelo rapto e violação de três raparigas num campus universitário. Foi pedida uma avaliação de saúde mental pelo seu estranho comportamento.

A primeira psicóloga que entrevistou Billy ficou estupefacta. Na verdade, ela não conseguiu falar com Billy (que estava a "dormir"), mas ficou a conhecer várias das suas, não uma, mas 10 personalidades diferentes (mais tarde, seriam relevadas um total de 24 personalidades diferentes). Cada vez que uma nova personalidade "entrava em cena", Billy retraía-se, ficava com os olhos vidrados e depois aparecia alguém que se apresentava a Dorothy, a psicóloga. Havia um rapaz de 8 anos chamado David que absorvia todo o sofrimento, havia um homem chamado Arthur, com sotaque britânico e algo arrogante, que era também o mais racional, havia Ragen que era o único autorizado a mexer com armas e que admitiu ter feito roubos preocupado com as contas de Billy, havia Tommy, o adolescente despreocupado e havia uma mulher lésbica chamada Adalana que era a alegada responsável pelos crimes de violação. Querem que torne tudo mais confuso? Muitas personalidades não se conheciam entre si e Billy não sabia da existência de nenhuma.

A teoria das várias personalidades para explicar o sono permanente de Billy, ou seja, o facto de ele nunca "se chegar à frente" é que, com apenas 16 anos, subiu ao telhado de uma casa para se matar. As outras personalidades pararam-no mas, a partir daí, a missão passou a ser proteger Billy de si próprio. Das várias vezes que as outras personalidades o deixaram "chegar-se à frente" na prisão, tentou sempre matar-se. Isto devia-se, em boa parte, aos longos períodos de amnésia de que sofria quando eram as outras personalidades que estavam no controlo. Por outro lado, Billy foi vítima de abusos sexuais por parte do padrasto na infância o que, segundo os psicólogos e psiquiatras poderia justificar a sua desintegração em múltiplas personalidades.

Sometimes I wonder: Do I want to get well? Is all this fear, all this shit I’m going through now worth it? Or should I bury myself back here in the brain and forget about it? What’s your answer? "I don’t know."

Durante o julgamento, Billy foi absolvido por razões de insanidade devido a múltiplas personalidades. Foi a primeira vez na história dos Estados Unidos que isto aconteceu. Claro que as opiniões se dividiam entre Billy ser, de facto, um homem atormentado, preso nas suas 24 personalidades, ou um mentiroso compulsivo e um actor brilhante.

Mais importante do que isso, há três mulheres que foram raptadas, roubadas e violadas e que viram o seu violador ser, não só, considerado inocente, como tornar-se um dos homens mais famosos dos Estados Unidos na época. As mulheres violadas foram completamente esquecidas a favor do seu agressor (apesar disso, duas delas aceitaram ser entrevistadas para o livro de Daniel Keyes e dar a sua versão dos acontecimentos).

O autor - Daniel Keyes - foi, na verdade, escolhido por Billy para o entrevistar ao longo de um período de dois anos e contar a sua história, depois de ter lido e adorado o livro do autor «Flores para Algernon». Foi uma investigação muito aprofundada do caso que deu origem a este livro que não está traduzido em português. Mas claro, muito do que aqui está escrito é baseado na narração dos acontecimentos por parte de Billy, mas será que ele é um narrator confiável?

Billy passou mais de uma década a entrar e sair de hospitais psiquiátricos, poderá (ou não) estar envolvimento no desaparecimento de duas pessoas enquanto esteve em liberdade. Depois disso, foi diagnosticado com cancro e morreu em 2014, curiosamente o mesmo ano em que Daniel Keyes também morreu.

Há uma série da Netflix "Monsters inside: the 24 faces of Billy Millingan", que explica bem o caso e o seu impacto para o sistema jurídico e para a psicologia. Além disso, enquanto o livro conta a história exclusivamente do ponto de vista de Billy e da sua família, a série mostra os dois lados (Billy estar a dizer a verdade ou ser um mentiroso compulsivo) e também destaca que as vítimas nunca deveriam ter sido esquecidas pelo sistema de justiça e pelos media neste caso e foram completamente apagadas desta história...