[opinião] Quem perde com com o ‘cancelamento’ da poesia?
tradução literária, identitarismo, leitura sensível, cancelamento, liberdade de expressão
Só deveríamos ler textos, desfrutar poesias e imaginar mundos dentro de caixas pré-delimitadas por questões ideológicas, culturais e de raças? André Vieira É editor-adjunto da ‘fina’ Era uma tarde de primeiro de março de 2021. E para a maioria dos habitantes do hemisfério-sul, mais uma jornada convencional da vida enfurnada em casa, a conciliar exigências do trabalho, obrigações familiares e exigências para sobrevivência em meio a pandemia. Sobre nossas cabeças, contudo, nos domínios de nossos irmãos do norte, uma revelação abalaria a definição de um dos gêneros mais antigos de nossa breve história como seres humanos: a finalidade da poesia. Descoberta que nem vedas indianos, tampouco gathas zoroastras, passando por filósofos gregos e historiadores romanos puderam, em toda a sapiência e dedicação transmitir às nações vindouras ainda por nascer. Pois foi precisamente naquela segunda-feira, após a ressaca do último fim de semana de fevereiro, que artífices iluminados pela graça divina e munidos de aparelhos multicomunicacionais extragalácticos findaram um mistério de séculos, reinventando a roda e instaurando um novo paradigma em nosso tempo: enfim, encontrou-se a finalidade da poesia. A descoberta poética aconteceu no perfil do Twitter da escritora não binária, Marieke Lucas Rijeneveld, após ela (ou ele) e sua casa de publicações desistirem de traduzir para o holandês poemas de Amanda Gorman, poeta mundialmente conhecida depois de declamar The Hill We Climb, na posse de Joe Biden. O tom nevrálgico das publicações de fãs da poeta norte-americana contra a tradução de seus poemas por uma pessoa “branca e holandesa”, fez com que a escritora e a editora reconhecerem a “gafe” e afirmarem que seus próximos projetos serão acompanhados por “leitores sensíveis”. O abacaxi neerlandês-estadunidense nos leva a um paradigma muito sério acerca de casos clássicos de lacração-cancelamento. Embora não se discuta o quão importante essas poesias sejam para seus leitores e admiradores norte-americanos, será que poderíamos cercear um outro povo, imerso em outra cultura e falante de outra língua, de ter acesso a um bem-cultural por conta da origem e fisionomia de tradutora? Gorman, ao contrário do se pense, não foi taxativa com a etnia, sua única exigência foi a de resguardar as características de seu texto (ritmo, estilo, oralidade etc.). Para Bert de Kerpel, tradutor — e branco, antes que alguém pergunte — do parlamento holandês, em um texto da NWS, problematiza se o cancelamento de Rijeneveld seria motivado pela tese de que “um tradutor branco não seria capaz de ter empatia suficiente com os sentimentos que estão por trás dos poemas de Gorman.” E questiona se isso impediria a autora, ou qualquer um que se fosse, de fazer um bom trabalho editorial caso tivesse conhecimentos na língua e cultura da poeta, ele afirma: “É bastante rude dizer que [quem] tem a mesma cor de pele de Amanda Gorman está, por definição, em melhor posição para traduzir seus poemas.”. O cancelamento da editora e da autora holandesas aponta para um debate mais delicado: só deveríamos ler textos, desfrutar poesias e imaginar mundos dentro de caixas pré-delimitadas por questões ideológicas, culturais e de raças? O risco de alçarmos uma cultura determinista — introduzida por séquitos de seus asseclas — é talvez restringir o acesso de tudo produzido até então a uma casta de privilegiados, seja de leitores, seja de tradutores. “A propósito, as obras de escritores podem ser traduzidas por mulheres? Será que traduzir James Joyce e Marcel Proust é trabalho só para homens brancos?”, argumenta Dirce Waltrick do Amarante, professora de estudos de tradução, na Federal de Santa Catarina, em artigo no Estadão. E quem perde com tudo isso? A Poesia, os poetas e os leitores. Por certo, reivindicar um tema ou uma temática dentro de um panorama sociocultural é importantíssimo para enriquecer a discussão desde a lombada do livro até a sala de estar; contudo, é correto criar barreiras à circulação de poetas e suas obras? Aparentemente, os “leitores sensíveis” de Gorman não a compreendem em suas próprias palavras: “Pois sempre há luz/se apenas formos corajosos o suficiente para ver isso/se apenas formos corajosos o suficiente para sermos isso”.
Texto originalmente publicado em Revista Fina