Após 30 anos de sua morte, obra do artista ganhou exposições mundo afora e biografia ilustrada
Matheus Lopes Quirino
No início da década de 1980, Nova York foi infestada por uma bem-vinda praga, seu nome era Keith Haring. Estava em todo lugar. O signo era simples: um bonequinho geometricamente infantil, desenhado sem rosto e maiores detalhes. Um homem, um cão, formas geométricas esboçando emoções, Haring usou dos espaços urbanos para falar sobre imperialismo ou consumo de drogas na época em que o presidente Ronald Reagan apertava o cerco sob o lema “Não use drogas, pratique esportes”.
Ora tratando do prosaísmo do cotidiano, ora vertendo por uma militância chiclete, como no icônico poster “for nuclear disarmament” (1982), uma das primeiras intervenções de grande expressão do artista, os signos de Haring tatuaram Nova York. O artista começou traçando paredes e vagões nas estações de metrô da cidade. Suas figuras minimalistas representavam claro contraste à metrópole (hiperbólica, luxuosa, apelativa) e às tribos na moda, como os arrojados punks e os yuppies.
Agora, nos meses de setembro e outubro, suas obras estarão e leilão e em exposição na Sotheby’s, em Nova York. Com mais de 140 obras de arte selecionadas a partir do acervo da Keith Haring Fundation, além das que vieram de acervos de coleções particulares de amigos, a instituição abre um leilão virtual nesta quinta-feira, 24, com obras de Andy Warhol, Jean-Michel Basquiat, Kenny Scharf, Roy Lichtenstein, entre outros, além do próprio Haring. 100% dos rendimentos da Fundação para beneficiar o Centro Comunitário de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros de Nova York (conhecido como The Center), para o qual Haring criou um mural em grande escala em 1989.
Todas as obras leiloadas são inéditas. Os lances podem começar a partir de $ 100, em determinadas obras, a lances iniciais de $ 10.000. No leilão, obras de Warhol são o destaque de quem procura raridades da pop art. A Soltheby’s colocou como cartaz do leilão um retrato de Haring com o companheiro Juan DuBose, feito por Warhol – na expectativa de arrecadar mais por ela. Outro amigo do artista, George Condo, que muitas vezes trabalhava no estúdio de Haring no East Village está bem representado com gravuras. A venda inclui um excelente agrupamento de primeiros desenhos e pinturas feitos pelo artista na década de 1980.
Ceifado por complicações da AIDS em fevereiro de 1990, o artista sorveu dos excessos que pode naquela última década pré-internet. A cena cultural da cidade vivia em constante ebulição por causa de ousadias de seus moradores mais ilustres. A MTV estava no auge de suas transmissões, propagando virais e apostando em formatos de comédia e shows musicais. Não só a música, bem como a moda, o design, o cinema e as artes plásticas flertavam com o pop, o arrojado, por vezes (como a moda) brega. A liberdade sexual era escancarada por cantores, performers, artistas plásticos e visuais, escritores, atores, e toda gente de expressão do mundo das artes, habitués da boate Studio 54, em Manhattan.
Quem também se perdia pelas pistas fluorescentes do lugar era Haring, acompanhado de contemporâneos como Roy Lichtenstein, Jean-Michel Basquiat e, já veterano e afamado, (o assíduo) Andy Warhol, ambos da corrente multicultural da pop art. Nas antológicas noites da boate do entrepreneur Steve Rubell, o point, que inclusive cedeu espaço para uma das primeiras individuais de Haring, tornou-se um gueto da comunidade LGBTQ, sendo lembrado como um monumento da afirmação sexual e da liberação, aceitação e promoção dos direitos dos homossexuais na cidade.
Na década de 1980, em que a comunicação era majoritariamente analógica, Keith Haring começou rabiscando com giz Nova York: seu objetivo era ser rápido e preciso. Hoje, o artista é celebrado grandes exposições retrospectivas na Europa e Oceania, em decorrência dos trinta anos de sua morte. Das quais, a da National Gallery of Victoria, juntamente com obras de Basquiat, Crossing Lines, no primeiro semestre, juntou trabalhos dos dois jovens pintores em uma exposição que questiona a rapidez da linguagem na era da comunicação – considerando os artistas pioneiros, por exemplo, nisso que chamam hoje de emojis, gifs, entre outros recursos linguísticos básicos para a comunicação diária, disponíveis nos teclados de qualquer smartphone.
Keith Haring deixou uma prolífica obra. Ele não era um artista de grandes galerias ou discípulo das Fine arts. Em dados momentos, desprezou circuitos oficiais, enfurecia marchands e, em meio a críticas dos mais acadêmicos, polemizou ao abrir, em 1986, no Soho, sua loja de ‘comércio popular’ de arte, a Pop Shop.
Diferentemente dos ready—mades copiados e falsificados em grande escala, como de artistas como Warhol – não é preciso andar muito, mesmo em São Paulo, para achar algo que caia feito luva para decoração de casa, do tipo Sopa Campbells ou reproduções coloridas da diva do cinema Marilyn Monroe –, os produtos da Pop Shop eram exclusivos. Pensados para um público jovem, em coleções limitadas de camisetas, tênis de cano alto, cadernetas de anotação, broches, mochilas, apontadores, louças e até mesmo eletrônicos. Tudo devidamente certificado pelo ‘pedigree Haring’.
Surfando no hype e na luxúria do cosmopolitismo novaiorquino, o artista atingiu camadas populares se envolvendo em campanhas de publicidade a projetos beneficentes. Seu traço podia ser visto em pôsteres da Citizen até em ações da revista Playboy e da UNICEF. Em 1984, Haring compôs parte do figurino de Grace Jones no lendário clip “I’m not perfect”. Nos anos seguintes, passou a militar em favor das causas em prol da cura e da disseminação de informação do vírus HIV. Em maio deste ano saiu Drawing On Walls: A Story Of Keith Haring pela editora Enchanted Lion Books. Um perfil biográfico lúdico e leve mostra a trajetória do artista com texto de Matthew Burgess e belas ilustrações de Josh Cochran.
Haring e o Brasil
Haring gostava de hip-hop, cores vibrantes, Mickey Mouse e do Brasil. Cá esteve, pela primeira vez, em 1983, durante a montagem da 17ª Bienal de Arte de São Paulo. Aqui, para além da ocupação no Pavilhão da Bienal, o artista norte-americano realizou intervenções pela cidade, grafitando vias públicas e muros no centro da cidade, como o famoso contorno (hoje, inexistente) da Av. Sumaré.
Nos respiros finais da ditatura militar, enquanto Haring desfilava pelo país tropical em meio a galeristas e personagens graúdos do mercado das artes, uma figura singela e pouco falada (ao menos, hoje) era já um grande talento com força de expressão na cidade de São Paulo. Seu nome era Alex Vallauri. Etíope radicado no Brasil, Vallauri foi um grafiteiro falado, antes mesmo da moda cinza pegar em muros da capital paulista.
Durante os anos 1970, ele se arriscou desvirginando paredes noite adentro com figuras minimalistas (como Haring). Tornaram-se suas marcas as mulheres que traçava com botas pretas de salto agulha e uma bandeja de frango assado.
Tendo começado na xilogravura, Allex Vallauri expôs sua primeira individual em 1970, na Associação de Amigos do MASP, sendo lembrado ao longo de décadas por mostras nacionais e internacionais. Carimbos de uma época em que os muros significavam panteão para artistas de rua, debaixo do guarda-chuvas de chumbo em anos difíceis, enquanto as redes sociais e conexões sem fio sem sonhavam com seu lugar ao sol.
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