Fotografia da minha autoria

Gatilhos: Violência, Doença Mental, Bullying

O silêncio, em determinadas ocasiões, é bastante ruidoso. Quando estamos em sofrimento, vulneráveis ou emotivos, ficamos tão assoberbados que seria mais fácil se pudéssemos deixar de sentir, se pudéssemos carregar num botão e entrar em pausa. Mas e se isso, em vez de ser algo momentâneo, fosse permanente? É o que vamos desvendar no livro de Won-Pyung Sohn.

 um monstro encontra outro monstro

Amêndoas conta-nos a história de Yunjae, que nasceu com uma condição neurológica, denominada alexitimia, que o impede de identificar e expressar sentimentos. Portanto, emoções como, por exemplo, o medo, a tristeza e a raiva são-lhe completamente desconhecidas, o que se revelará desafiante e limitativo, obrigando-o quase a fingir para se integrar.

O seu porto seguro divide-se entre a mãe e a avó, que unem esforços para o prepararem o melhor que conseguem, desenvolvendo estratégias que lhe permitam lidar com o mundo à sua volta. Só que no dia em que completa 16 anos, em plena véspera de Natal, um acontecimento atroz abala tudo o que conhece, ficando sozinho. Narrado na primeira pessoa, é curioso perceber como é que perante esta ausência emocional nós conseguimos sentir tanto.

Enquanto educadora de infância (de formação) e alguém que trabalha de perto com crianças e adolescentes, reconheço a importância de um diagnóstico célere, para que a forma de atuar seja o mais adequada possível. É natural existirem receios, sobretudo pela questão dos rótulos e por serem olhados como se não fossem mais do que aquela característica. Não obstante, esta identificação precoce (quando exequível) é a maneira mais direta de compreender, de reconhecer a diferença e de não permitir que seja um motivo de exclusão. Nesta parte, gostei que a família não omitisse as dificuldades, mas que também não procurasse culpados. Pelo contrário, concentrou-se no protagonista e construiu, em conjunto, ferramentas para o futuro, numa demonstração plena de amor.

«Nunca fui abandonado por ninguém. Mesmo que o meu cérebro fosse uma trapalhada, o que mantinha a minha alma inteira era o calor das mãos a segurar as minhas, dos dois lados»

Fiquei mesmo rendida à narrativa: pela delicadeza, por nos incluir em vários acontecimentos, ainda que possa não ser tão natural para nós, atendendo a que não partilhamos a patologia de Yunjae, por vermos o seu compromisso e todas as suas tentativas para não ficar isolado no seu mundo. Ele está a aprender e eu sinto que fui aprendendo com ele.

Não é segredo que sou fascinada por obras sem personagens heroínas e sendo esta tão focada no protagonista, e menos na história em si, achei maravilhoso acompanhar a sua evolução. Houve alguns aspetos que não me pareceram tão verosímeis, mas a criação do narrador está soberba, porque vemos a sua transição, vemo-lo despir uma pele mecanizada para florescer enquanto alguém que questiona e quer sentir. Isto não significa que tenha passado de um extremo ao outro: significa apenas que aquela sensação robótica começa a ceder e a abrir espaço para que se torne na pessoa que «nunca, jamais, imaginaria poder ser».

Amêndoas é a prova que a empatia e os laços de amizade podem mudar-nos por dentro. E que, por mais que existam coisas que fujam do nosso entendimento, aceitar também é uma demonstração de afeto, de estima, de amor. Não há monstros nesta história. Há mãos a amparar a alma inteira de Yunjae. E eu comovi-me muito ao perceber que algo em si se libertou para sempre.

Nota: Esta publicação contém links de afiliada da Wook e da Bertrand