A Educação dos Gafanhotos | David Machado
O salto aleatório do gafanhoto encontra sempre um chão, um local sem destino planeado, a viagem depois da viagem. Dois amigos percorrem a costa leste dos EUA, num mundo dicotómico, dividido entre Faulkner e Hemingway, a realidade percecionada através de uma experiência literária. De que serve viajar, se para cada local inventamos uma narrativa desprendida da realidade?
A experiência ficcionada, os espaços e as pessoas como um imenso deserto, uma tela vazia aguardando a interpretação do autor. Racionalizar para não se deixar levar pela emoção, para não se confundir com os que se entregam a itinerários programados, horários a cumprir, trilhos previamente traçados que percorrem com a ilusão de quem descobre algo de novo, agora partilhado com todos os que os antecederam, gente em busca de um sentido para vida, presos a um processo de validação.
Caminhar sobre o gelo fino dos diálogos de engate, testar os limites do outro, o jogo da sedução pela mentira, pelas histórias inventadas que fazem do autor, um personagem de ficção dentro da sua própria vida. A viagem pela viagem, interdito deslumbrar-se com o que se vê ou prender-se a uma emoção, não se deixar tocar pela realidade. Um romance sobre a insatisfação e a ilusão da fuga, presos às suas mentiras sem se aperceberem de que não iniciaram viagem alguma.
As metáforas deslizando, por vezes, escapando-se a alguma contenção, um estalo repentino de luz espraiando-se na distância. Na primeira página três “como” que, felizmente desaparecem nas páginas seguintes. Depois o onze de setembro confirmado a partir de um telefonema para Portugal, a atestar a pequenez do mundo global, a ditar o regresso à manada, partilhando histórias reais com quem aguarda um voo de regresso a casa. A realidade a matar a ficção, perante o medo já não é possível racionalizar. Na manada termina a viagem.