Finalmente colmatando a lacuna "Maria Teresa Horta" da minha lista de autores lidos.
Optei por Meninas para começar por se tratar de um livro de contos, em prosa, sendo Maria Teresa Horta mais conhecida pela sua poesia; sendo eu conhecida por não saber apreciar poesia, pareceu-me uma escolha mais acertada.
Conhecer um pouco da vida de Maria Teresa Horta ajuda a compreender a sua obra, que muito tem de autobiográfico. Em muitas entrevistas é possível ler sobre a relação da autora com a mãe, e em muitos contos é possível reviver um pouco desta relação. Beatriz, Laura, Maria do Resgate, Lucinha.
Quando acordou já ninguém falava de outra coisa, a começar pelo príncipe D. João, radiante e sorridente. Mas a primeira pessoa a ser informada fora a Rainha. (...) Afeiçoara-se àquela menina arredia, como se ela de algum modo tivesse vindo substituir-lhe a filha que, no mesmo dia em que a infanta chegara vinda de Madrid, tinha partido para casar em Espanha.
E se alguns dos contos são autobiográficos, outros, como Lilith, que abre o livro, pegam em mulheres (e meninas) mitológicas; outros ainda são apenas tentativas de biografias, de mulheres da história que foram meninas, como Carlota Joaquina, que veio para Portugal para se casar com apenas dez anos (uma menina), que tenta escapar para a floresta mas não consegue escapar ao facto de ser mulher, Erzsébet Báthory, a húngara conhecida pela sua crueldade, mas que ficou noiva também com dez anos, ou Katie Lewis, a menina que, lendo, fascinou Edward Burne-Jones e Oscar Wilde.
Quando, meses mais tarde, Oscar Wilde viu o quadro exposto na parede de uma galeria de arte, continuou a não perceber aquilo que mais o intriga: se o deslumbramento de Edward Burne-Jones por Katie Lewis, se o fascínio desta pela literatura.
Meninas ficcionais, reais ou mitológicas, o sentimento que percorre o texto é de incompreensão e de tristeza. Na ausência de amor e compreensão, todas as meninas procuram o que lhes falta na natureza, na floresta, ou no misticismo - todas elas estão perdidas.
- Para onde estás a olhar?
Ouvi-a repreender-me, desprendida, num tom agreste, a fazer-me sentir indesejada, inoportuna. Não me contendo, fitei com acinte aquele homem moreno, risca perfeita no cabelo acamado e luzidio de brilhantina, cara longa e olhos cor de avelã ensombrados pelas pestanas negras; olhar incerto a afastar-se do meu demasiado depressa.
Temos, assim, meninas várias, em culturas várias, em épocas várias - e em todas elas o mesmo sentimento. Lembrou-me um pouco desta citação:
Que é possivelmente das frases mais verdadeiras da literatura (e escrita por um homem). Todas as meninas deste livro sabem o que é ter, talvez não 13 anos, mas serem crianças, serem raparigas, e todas conhecem o inevitável que daí advém. Muitas delas, tal como Maria Teresa Horta, conhecem a perda da mãe - que se afastou da família, indo contra as convenções sociais estipuladas.
- Ela não te quer, ela deixou-te! De uma vez por todas percebe quem é a tua mãe. Uma maluca, uma mulher sem vergonha nenhuma!
O conto final, Estrela, é devastador. É impossível lê-lo sem engolir em seco, sem reacções físicas.




