Homens Elegantes, 524 páginas, é da Todavia


Samir Machado de Machado foi o primeiro autor resenhado nesta newsletter, com a obra O Crime do Bom Nazista (duas machadadas). Esclareço que, apesar dos nomes, nós não somos irmãos (meu único parente vivo é meu gêmeo maligno, o Érguio Machado).

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O luso-brasileiro Érico Borges é um agente a serviço do conde de Oeiras (futuro marquês de Pombal), atuando na Londres de meados do século XVIII. Sua missão é investigar o contrabando para o Brasil de livros pornográficos impressos na Inglaterra (sim, uma premissa absurda, mas isso faz parte da proposta). Ele é uma mistura de D’Artagnan com James Bond, e o livro relata suas aventuras, entre perseguições em carruagens, lutas com espadas, tiros, assassinatos, trapaças, etc, num clima de empolgação quase juvenil.

Esse é um veio literário que poderia ser mais explorado no Brasil, nenhum dos nossos escritores celebrados escreveu livros de aventuras, que costumam ser muito eficientes em cativar leitores jovens (Monteiro Lobato tem aventuras com a turma do Sítio, mas não é bem a mesma coisa). Samir Machado se sai bem narrando peripécias e está dando um bom exemplo, aqui.

O livro ainda tem outras características típicas desse gênero, como revelações surpreendentes e fios temáticos que parecem soltos mas que são amarrados no final. O que não há é uma mocinha linda em perigo. Afinal, Érico Borges é gay. Boa parte da história inclusive gira em torno de seu romance com um jovem padeiro chamado Gonçalo, e a obra é uma história de amor tanto quanto de aventura.

Para o meu gosto, a parte romântica é açucarada demais, com piadinhas de alcova, cafunés ao amanhecer, esse tipo de coisa. Parece que o autor ficou em dúvida entre a prateleira de “Os Três Mosqueteiros” e “A Ilha do Tesouro” ou a de “Vermelho, Branco e Sangue Azul”, optando afinal por tentar aparecer nas duas, o que talvez contribua para o número exagerado de páginas.

Há alguns momentos de leve experimentação formal: um capitulo é construído na forma de uma cena de teatro, outro é narrado em primeira pessoa por uma personagem sem importância, e em momentos nos quais duas ações transcorrem ao mesmo tempo, Samir Machado divide o texto em duas colunas paralelas. É claro que continuamos tendo que ler um trecho de cada vez, de modo que o efeito é antes estético do que prático.

Para levar a cabo sua investigação, Borges tem que se adaptar à metrópole, capital do mundo na época, procurando aprender como se comportar, em quem confiar, de quem desconfiar. Neste último caso, temos o conde de Bolsonaro (isso mesmo), figura obviamente nefasta, pérfido antagonista. Os melhores momentos da história são proporcionados pelos embates entre os dois. No meio tempo, o leitor vai tendo lições com os personagens sobre assuntos vários, e a narração às vezes relaxa e resvala para o didatismo enquanto tenta explicar quem são as celebridades da época, as disputas e rivalidades entre os países, a situação do Brasil, a moda, a culinária, o comércio de Londres, etc.

O didatismo fica mais forte quando se trata da questão sexual. Além de Érico, todos os mocinhos da história são gays, Bolsonaro é um homofóbico que não passa de um gay enrustido, e a obra faz questão de ser uma obra gay. Até aí, tudo bem, é uma opção válida do autor. Só que começa a ficar cansativo quando somos lembrados disso a todo momento, e parece que a vontade de contar uma história gay se sobrepõe à vontade de contar uma história boa. Digressões sobre personagens históricos supostamente homossexuais, perorações sobre como a intolerância é uma coisa feia, lições de moral sobre os gays serem pessoas decentes, essas partes cansam um pouco.

Outro problema da leitura é que a trama de fundo — os embaixadores, os interesses nacionais, as famílias reais, os conchavos, as negociações entre ministros, enfim, o contexto geopolítico — é rocambolesca demais. A menos que o leitor tenha muito interesse e certa erudição a respeito da história europeia do século XVIII, é difícil acompanhar.

Uma machadada.

(lembrando que livro sem machadada é ótimo, uma machadada é bom, duas é fraco e três é muito ruim)

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