Alegria ou morte!
filosofia, sociedade, alegria, crítica social, política
O dia dos mortos retratado pelo pintor Diego Rivera/ reprodução Enquanto mercadoria, ela é sempre fake. Nasce como mentira e se reproduz como droga. Por fora, há uma embalagem esteticamente sedutora. Gustavo Nagib Não percebo grandes interesses no que diz respeito à introdução da alegria como ingrediente perene em nossa vida cotidiana. Lamento, já que me parece pouco provável alcançar o sucesso em uma sociedade na qual a alegria se perpetua como utopia. Dadas as estratégias do poder dominante em uma sociedade de classes, a alegria jamais seria gratuita. Soa estranho que ela seja algo que precise ser alcançado. A alegria simplesmente é e está. Enquanto mercadoria, ela é sempre fake. Nasce como mentira e se reproduz como droga. Por fora, há uma embalagem esteticamente sedutora. Por dentro, o vazio. A alegria é um estado de contentamento e de prazer que não se pode mensurar. Existem exclamações do tipo: “estou muito alegre!”. Claro, não é possível estar “pouco alegre”. A alegria é transbordante. É o tesão máximo pela vida, que não pede licença para ser e naturalmente se espalha. A alegria é contagiante quando está presente. Não existe uma alegria ausente. Ela está nas gentes, no plural, atiçando o complexo sistema nervoso dos seres humanos, produzindo correntes elétricas pelo corpo. Alguns chegam a preferir termos como “energia”, “vibe”, “onda”… A alegria é um tsunami. Já que é difícil conceber a captura da alegria, utilizam-se da repressão como instrumento de dominação política e econômica contra as sociedades que a cultivam. Perseguem, prendem, torturam, exterminam as sociedades alegres, enquanto aquela alegria postiça, vendida nos shoppings, que até vem com prazo de validade, na verdade, nunca existiu. Se a vida é a luta constante para não virar morte, tanto a sua razão quanto a sua mais profunda subjetividade são alegria pura. Caso contrário, tem-se apenas um longo pesadelo e uma insuportável contagem regressiva para o dia do juízo final. A vida só poderia ser e estar como sinônimo de alegria. Tem sido mais evidente, no entanto, a globalização da vida como sinônimo de produtividade, exausta de si mesma. Vejo e sinto que muita gente não aguenta mais viver assim. “A alegria é a prova dos nove”.
Texto originalmente publicado em Revista Fina