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| Fotografia da minha autoria |
«É preciso recomeçar a viagem. Sempre»
Viajar sem sair do lugar é uma modalidade que aprecio, sobretudo, quando não tenho a possibilidade de partir à descoberta. E gosto bastante de o fazer através do olhar minucioso do viajante, porque acredito que nos permite alcançar lugares intimistas e ter acesso a perspetivas que não conheceríamos de outra maneira, já que cada um de nós observa com propósitos distintos. Deste modo, foi um encanto embarcar nesta aventura.
VIAGEM A PORTUGAL: O LIVRO
A minha relação com Saramago sempre foi intermitente. Cruzámo-nos no secundário, pela mão do Memorial do Convento, numa altura em que a minha predisposição e a minha maturidade literária não estavam cimentadas. Portanto, não fui capaz de entender a mensagem para além do óbvio, nem de me desprender do grande obstáculo que era a pontuação. Apesar disso, lá no fundo, sabia que nos voltaríamos a encontrar.
«Não há limites para o silêncio. Debaixo destas pedras, o viajante retira-se do mundo»
Para continuar a cumprir esta previsão [depois de já ter lido História do Cerco de Lisboa, O Conto da Ilha Desconhecida e As Intermitências da Morte], apanhei boleia da obra Viagem a Portugal, desbravando o nosso país de Norte a Sul. Há um misto muito bonito entre aquilo que é a história do local e a perceção do autor; entre as memórias que se multiplicam e estabelecem pontes para outros recantos e as vivências da população. E é este dialeto que torna a leitura tão especial, porque recupera as emoções de momentos tão singulares.
«Afinal a resposta estava à beira da estrada por onde seguia»
Fiquei a conhecer novas paragens e recordei experiências que também vivi. Embora tenha noção do período temporal que nos separa e das metamorfoses que sofreram pelo meio, consegui encontrar um ponto comum entre nós - e alimentei a vontade de pegar na mochila e apenas ir. Portugal tem rotas mesmo inacreditáveis.
«É viagem o que está à vista e o que se esconde, é viagem o que se toca e o que se adivinha,
é viagem o estrondo das águas caindo e esta subtil dormência que envolve os momentos»
Emocionei-me bastante com algumas partilhas, que não reproduzirei para não melindrar a leitura de quem quiser viajar por estas páginas. Mas também me ri com certas observações e apontamentos de ironia. Viagem a Portugal é um guia único, com uma abordagem muito própria. E, tal como a viagem que nunca termina, esta leitura seguirá pelo mesmo princípio: porque hei-de revisitá-la e perder-me em todas as suas trajetórias.
VIAGEM A PORTUGAL: O DOCUMENTÁRIO
A série homónima, baseada no livro de José Saramago, teve Fábio Porchat ao volante da aventura, tentando reproduzir os passos do Nobel da Literatura. Pessoalmente, creio que a escolha foi genial, uma vez que o humorista conseguiu equilibrar os elementos históricos com a leveza da descoberta, da curiosidade. Não obstante, com um toque claro de modernidade, também fomos encontrando críticas subtis à sociedade.
Senti, acima de tudo, que este documentário se fez de uma tremenda verdade e generosidade; de um genuíno interesse em entender este Portugal desconhecido, as suas gentes e tradições, elevando a paisagem e a arquitetura. Foram seis episódios com uma atenção constante ao detalhe e àquilo que sustenta a essência de cada lugar, por isso é que temos consciência do quanto é necessário voltar para «traçar caminhos novos».
Viagem a Portugal [disponível na plataforma da RTP Play] é um projeto que não só se enquadra nas comemorações do centenário do autor, como também «assinala a reedição desta obra», que contém imagens inéditas recolhidas por Saramago. Na companhia de Porchat, as suas palavras adquirem um novo sentido.
Com participações especiais, que trouxeram ainda mais brilho a este documentário, somos confrontados por uma misto de sensações. E, além disso, ficam as questões: o que pensaria o nosso Nobel dos tempos de hoje? Será que manteria a mesma opinião sobre os locais que visitou? Apesar de não descobrirmos as respostas, permanece a certeza de uma estrada cheia de experiências transformadoras - e inesquecíveis.
