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Nov23
Maria do Rosário Pedreira
– Então, senhora Kayleigh, afinal de contas, que tipo de coisas viu?
As pessoas fazem de conta que é uma pergunta perfeitamente normal, mas que normalidade pode haver numa pergunta para a qual se espera uma resposta horrível? Também não sinto que essas perguntas signifiquem que as pessoas se interessam por mim. Talvez isso não seja estranho, talvez as perguntas não tenham como objetivo o interesse pela outra pessoa, mas a curiosidade sobre as vidas que nós pudemos ter levado [...] mesmo assim, eu noto uma pontinha de fascínio mórbido, uma necessidade que leva a fazer perguntas, mas que nunca ficará totalmente satisfeita.
Vi uma rapariga enterrar em direto uma navalha demasiado romba no braço; foi preciso enterrá-la bem fundo para começar a sangrar. Vi um homem dar pontapés ao seu pastor-alemão com tanta força que o bicho chocou aos latidos contra o frigorífico. Vi miúdos a desafiarem-se mutuamente para ingerir uma dose irresponsável de canela. Li textos de pessoas elogiando as qualidades de Hitler aos vizinhos, colegas e vagos conhecidos, assim sem mais nem menos, à vista de todos, para potenciais companheiros ou patrões lerem. Li a frase «O Hitler devia ter acabado o que começou» escrita como comentário à fotografia de uns imigrantes num barco à deriva.
Tudo isto são exemplos desenxabidos [...] São tudo coisas que apareceram nos jornais, contadas por outros ex-moderadores de conteúdos, o que de resto não significa que eu não as tenha visto: as saudações nazis, os cães violentados…, a rapariga com a navalha é inclusivamente um clássico. Há milhares delas por aí, há uma em cada rua, imagino eu: naquela casa onde à noite a luz da casa de banho está acesa, ali está ela, sentada sozinha no chão duro e frio. Mas isto não é o que as pessoas querem ouvir. Querem que eu descreva algo novo, coisas que elas mesmas nunca teriam coragem de ver, coisas que ultrapassam em muito o seu poder de imaginação […]
Hanna Bervoets, Tivemos de Remover Este Post, tradução de Maria Leonor Raven