O dia em que Jesse Owens ‘derrotou’ Hitler na Olimpíada de 1936 /reprodução Neste polêmico debate, geralmente, apresentam-se duas formas de torcida: a que resgata posturas ufanistas, e a que enxerga atletas e torcedores como sujeitos políticos de seu tempo. Gustavo Nagib Estou no fuso horário de Tóquio, acompanhando fervorosamente os Jogos, atento às torcidas e aos comentários que me cercam. Empolga-me, ainda mais, o conteúdo político das Olimpíadas. Os diferentes posicionamentos ideológicos aquecem as discussões, produzem caretas peculiares nos comentaristas de plantão e dão uma turbinada nas emoções olímpicas. Evidentemente, os grupos naquele tal aplicativo de mensagens – a ágora virtual contemporânea – não ficaram de fora dessa. Teve quem comemorasse a derrota de um atleta que já apoiou um governo fascista. Houve contra-ataque: retrucaram dizendo que a torcida pelo seu país deveria ser incondicional. Em menos de cinco minutos, a polarização virtual rendeu umas 40 notificações de novas mensagens. Como era de se esperar, ninguém mudou de opinião depois de exaustivas argumentações. Afinal, esporte é política. Neste polêmico debate, geralmente, apresentam-se duas formas de torcida: a que resgata posturas ufanistas, e a que enxerga atletas e torcedores como sujeitos políticos de seu tempo. Na primeira forma de torcida, desponta-se a figura do patriota por conveniência. Tanto a sua versão ingênua quanto a convicta, apega-se dogmaticamente ao discurso de exaltação alienada de seu país. O patriota por conveniência cultiva um tipo de bravura inútil: aquela que é incapaz de alterar a ordem vigente. E a sua formatação estética baseia-se no uso incansável de adereços com as cores da bandeira nacional. Este ímpeto ufanista revela-se, enfim, apenas uma tentativa de livrá-lo de suas culpas internas ou uma orquestrada postura elitista para a perpetuação das desigualdades. A segunda forma de torcida, por sua vez, assenta-se na figura do torcedor crítico, que pode fazer oposição a atletas ou equipes que representam o seu próprio país devido a um determinado posicionamento político que eles tenham assumido. O torcedor crítico tem consciência das problemáticas atuais e analisa a realidade com mais lucidez. Ele sabe como é importante para o seu país se posicionar contra aqueles que reforçam preconceitos e apoiam ou promovem retrocessos da democracia. Os Jogos Olímpicos são uma das arenas políticas mais importantes e simbólicas para a humanidade. Muitos foram os governos que se aproveitaram do evento para apresentar e difundir suas ideologias ao mundo. É o torcedor crítico quem estará mais preparado para diluir uma possível cegueira ufanista e contribuir para a existência de Olimpíadas e sociedades cada vez mais inclusivas.