A Gorda | Isabela Figueiredo
Este romance começa pelo fim, por um falso final. Como se a autora receando que, algures pelo caminho o leitor abandone a sua leitura, antecipe um desfecho feliz. A voz que nos fala já não pertence à protagonista da história, mas sim a uma mulher que venceu o estigma de ser gorda, pese o facto de ainda pensar como gorda. Isto é a autora a impor o distanciamento próprio de uma narradora imparcial.
A Gorda não é um livro sobre a nova vida que se abre a quem perdeu 45 quilos (como quem se separa do peso de um gémeo siamês). É sobre o desconforto do corpo e o retrato da tranquilidade recalcada que caracteriza o povo português, essa brandura de costumes que, como professora, também lhe compete alimentar, e que aqui surgem numa escrita segura e lúcida.
Cada capítulo assume o nome de uma divisão da casa; quem não se revê no seu corpo sente que o habita por empréstimo. O romance inicia-se na porta de entrada e termina no Hall – local onde toda a circulação entre assoalhadas implica o seu atravessamento. Na vida, os intervalos são um instante de transição, um hall a que regressamos entre cenas, um imenso reiniciar que a cada momento anuncia o fim do passado, num prenúncio de felicidade que não tarda e, contudo, sempre adiada.
Ser gorda, mas sobretudo, ser uma mulher gorda, uma massa disforme de carne sem valor, leva à reinvenção da autoestima e a novas relações de poder de reduzida aceitação social. O sexo surge como a única forma segura de disfrutar o corpo. Entramos numa escrita que se desdobra em apetite pelo corpo, pelos seus cheiros, sabores e texturas, numa forma tátil de reconciliação. No sexo não há rejeição, isso pertence à vida social onde a vergonha se sobrepõe, matando a possibilidade de amar. David é esse limbo entre o social que nos rejeita e a intimidade dos corpos que se entregam sem receios, nem limites. O sexo surge na escrita da autora com a crueza de uma linguagem rude e sem paliativos.
A mobília vinda de África que não cabe no minúsculo apartamento de Almada, a recordar vestígios de um passado maior do que a realidade. Prolepse perfeita para o fim da ilusão de um país com o nível de vida europeu que termina com a época de Guterres, para afundar no inferno do período da troika, narrado segundo o ponto de vista de uma classe média empregada nos serviços do Estado.
Apesar do tempo que demorou a escrever este romance – cinco anos, agosto de 2011 a agosto de 2016 – a autora segurou a voz com total domínio do processo narrativo, conferindo à sua escrita um timbre que acompanha todo o romance. No ar fica ressonância de quem se vê reduzido ao papel de espetador da sua vida e, entre intervalos breves, disfruta de uma insaciável felicidade.
O David não sabia que a sua vergonha não implicava apenas a sua rejeição, mas a de toda a cultura que nos envolvia através dele. As palavras dos amigos, que representavam todos os homens, valiam mais para si que a nossa união, o nosso riso.