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Tema: Um livro que te cativou pela capa
Os livros concedem-nos a possibilidade de fugirmos ou de nos refugiarmos da realidade. No entanto, sinto que é fundamental quando nos aproximam da mesma, sobretudo, para compreendermos que não é por não ser a nossa que não existe e que não desfragmenta quem a vivencia. Caso as histórias nos façam sentir cada palavra com tanta emoção, é porque cumpriram o seu propósito. Tal como no livro da Tânia Ganho.
«Duas casas separadas por um rio, cinco anos de
separação e, no entanto, quando a criança dormia, fosse
em que margem fosse, eles continuavam juntos» [p:16/17]
Apneia conquistou-me pela capa lindíssima, mas contrastante com a dureza da mensagem que guarda no seu interior. Partindo do testemunho de várias mulheres, que partilharam as suas experiências de divórcios litigiosos e de idas aos tribunais de família e menores, somos confrontados por uma sensação de revolta e de angústia recorrente, atendendo a que evidencia problemas fraturantes da nossa sociedade - que, aparentemente, evoluída continua a falhar nos cuidados mais básicos. De quantas provas necessitamos mais para impedir tragédias?
«A missão do tribunal era defender "o superior
interesse da criança", mas a criança foi, desde o
início, relegada para um papel de figurante» [p:138]
A autora, alternando entre o passado e o presente, transporta-nos para uma série de jogos mentais, manipulações, perseguições e um profundo desrespeito pelo espaço pessoal. Num enredo que tanto nos vicia, como nos obriga a parar para respirar, é notório que a vítima é descredibilizada - ou mesmo culpabilizada -, que a passividade da justiça atrai consequências irreversíveis e que a maldade não tem limites, quando se dispõe de meios para deslumbrar e aliciar as altas entidades ou profissionais de instituições que deveriam ser capazes de nos proteger. Se um casamento termina, há mágoas e feridas que demoram a sarar. Contudo, quando se ultrapassam os limites do aceitável, atingindo um ponto de ódio sufocante, é preciso estar alerta. E tudo piora quando há uma criança envolvida em todo este processo surreal.
«À noite, sentou-se à mesa da
cozinha, às escuras, e chorou» [p:249]
Existem inúmeras formas de violência perpetuadas ao longo deste enredo. De modo a combatê-las, acompanharemos uma protagonista a amadurecer, a lutar pelo seu bem mais precioso - o filho -, a emergir e a libertar-se da inércia que teve poder durante demasiado tempo, provando que as aparências iludem e que o medo nem sempre vem daquilo que consideramos perigoso, estando, por vezes, tão perto. Colocando bandeiras no sentimento de culpa, no silêncio, nos diferentes tipos de abuso, no papel da mulher, na Síndrome de Alienação Parental, na quebra de estereótipos e na própria natureza humana, este livro manifesta o amor maternal. Embora considere que o final poderia ser menos célere, a sua qualidade é inegável, até porque também nos deixa a refletir sobre a quantidade de casos que atingem proporções insanas.
«Foi nesse olhar que mãe e filho
começaram a sarar as feridas mútuas» [p:512]
Apneia é uma obra de consciencialização, que me fez sentir perturbada, aterrorizada, enojada e cansada. Porque Tânia Ganho construiu uma narrativa bastante poderosa. Apesar do seu caráter ficcional, oscila entre o estado de guerra de algumas famílias, a fragilidade emocional e mental, a incompetência institucional e a burocracia que parece sempre mais prioritária que a vida do ser humano. Contrariando a opressão, o receio, o crescimento instável e os sentimentos dúbios, há ocasiões em que é possível renascer. Mas o caminho permanece longo.
«Ela fechou as pálpebras, abanou a cabeça. Não queria
saber. Não tinha estofo para suportar a verdade» [p:632]
// Disponibilidade //
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