Escultor da memória, Ishiguro conta distopia sobre as origens da crueldade cibernética
Literatura, Kazuo Ishiguro, Memória, Ficção científica, Ética
Tendo completado 66 anos neste domingo (8), Kazuo Ishiguro possui uma das obras mais versáteis do Japão, traduzida para dezenas de países Giovana Proença O Nobel de Literatura de 2017, concedido ao nipo-britânico Kazuo Ishiguro, reviveu a surpresa da edição anterior do prêmio, que laureou o cantor e compositor Bob Dylan, uma vez que o nome do japonês Haruki Murakami era a grande aposta à condecoração. A distinção de Ishiguro justifica-se pela versatilidade do autor, elevado pela Academia Sueca pela emotividade de seus romances e a desnudez da ilusão de conexão com o mundo exposta no conjunto de sua obra. A memória é o elemento definidor que perpassa a obra de Ishiguro. A complexidade de suas personagens reside no memorialismo dos fatos, contando com narradores em primeira pessoa, unindo presente e pretérito na reconciliação com escolhas e atitudes do passado. Seu consagrado livro Os vestígios do dia é o ponto culminante na retomada dos fatos dentro da prosa do autor. Mas em Não me abandone jamais o resgate das lembranças em questionamento adquire novos contornos a partir da ficção científica como plano de fundo, impactando no livre-arbítrio da protagonista, Kathy. Pela voz e pela memória da narradora em seus trinta anos, conhecemos as proporções da sociedade distópica de Kathy: clones humanos são criados para doação de órgãos. O grande acerto de Ishiguro ao remodelar uma tópica ascendente na literatura desde o século XX é a ênfase na interioridade em conflito da personagem, que relata sua experiência como cuidadora nos centros de doações às vésperas de se tornar uma doadora. Privada de perspectivas futuras, Kathy encontra-se olhando para o passado: as vivências em um colégio interno que cria clones para futuras doações e a relação que construiu com seus colegas Tommy e Ruth. O escritor Kazuo Ishiguro (reprodução) O reencontro com os antigos colegas e a aproximação do destino selado são os ponto de partida da reconstituição de Kathy. O triângulo amoroso fadado à morte compartilha da descoberta de experiências sentimentais e da angústia de descobrir-se condenado. A vida de Kathy como cuidadora, assistindo a morte de seus semelhantes, mistura-se a ficção, pincelada pela força emocional na narração de suas memórias. O valor do espírito humano e de suas contribuições são questionados pelo olhar de Ishiguro. No internato de Havisham -experiência que buscava humanizar os clones – os futuros doadores são incentivados a produção artística. Em seus anos de juventude, acreditam que o incentivo deve-se a apresentação de suas almas, gostos e paixões. Adultos, compreendem que o objetivo era colocar em xeque se os clones eram dotados de alma. Kathy, a cada linha, comprova que sim. A crueldade de seres criados para morrer é derrubada pela vivência da narradora, que deposita em nós toda sua potência sentimental. Não me abandone jamais ganhou uma adaptação cinematográfica, dirigida por Mark Romanek e indicada a seis categorias no British Independent Film Award. Em nuances sombrios, o filme desvela a melancolia e a nostalgia da obra de Ishiguro. A força do memorialismo rege a vivacidade do livro, carregando no título o nome de uma fita que Kathy ouviu nos tempos de internato. A narradora nascida para morrer, na falta de um futuro, volta- se para o passado em tentativa de reparação, atitude permissível aos que se veem condenados. Ishiguro usa o sentimentalismo como arma contra os clamores de progresso científicos que ferem a ética. Acima de tudo, o autor constrói uma reflexão sobre o espírito humano, em defesa da aceitação de limitações em detrimento de avanços desenfreados e do viver ciente dos limites. Publicado por Giovana Proença Taubateana de 2000. É pesquisadora na área de Teoria Literária na USP. Tem textos sobre livros e literatura publicados em jornais como Rascunho, Estado de Minas e O Estado de S. Paulo Ver todos os posts de Giovana Proença
Texto originalmente publicado em Revista Fina