Fotografia da minha autoria

«Como num filme, sempre me acontecia isso: eu olhava as coisas e imaginava uma música triste»

Os livros abrem álbuns de memórias especiais. E convidam-nos a passar para o outro lado da margem, para conhecermos um contexto e uma realidade distantes, mas que se tornam perto pela riqueza das descrições. Dos detalhes. E da emoção associada a cada um deles. E é por essa razão que eu acredito que há obras que significam amor no estado mais puro. Porque existe muito coração a sustentar as suas palavras, graças à sensibilidade do seu autor.

Os Da Minha Rua proporcionou-me o primeiro contacto com Ondjaki. E cativou-me para sempre. Há traços de poesia. E uma autenticidade tão evidente, que quase sentimos os sons, os aromas e o toque. Além disso, tem um lado familiar, próximo e comovente, que nos envolve e aconchega em cada situação. Nesta sucessão de contos pessoais, parece que entramos num mundo à parte. Ainda assim, percebemos «o milagre das pequenas coisas» e o doce e inocente crescimento das crianças: tão puras, tão aventureiras, tão resilientes. Folhear estas páginas é mesmo inspirador, uma vez que há muita vida no interior. Há micro estórias. Há recordações. E há uma certeza que ampara qualquer tristeza: a de pertencermos sempre a algum lugar.

A leitura deste livro é descomplicada, mas bastante emocional. E a sua premissa consente a abordagem de questões transversais à humanidade [mesmo que se manifestem em proporções diferenciadas]: o medo, a perda, a morte, a brincadeira, as conquistas, as saudades, a despedida, a escassez de recursos ou de espírito. No entanto, apesar de nos testemunhar acontecimentos mais complexos e exigentes, não perde a sua identidade positiva, feliz e carregada de esperança - tão própria da infância. Em simultâneo, por não esconder estes contrastes, Os Da Minha Rua ajuda-nos a relativizar e a valorizar o caminho.

Ondjaki tem um olhar bonito sobre as circunstâncias. E consegue reproduzi-lo com mestria. É por isso que nos identificamos com o seu discurso. Houve várias situações cujo peso não senti na minha pele, nem nos meus passos. Contudo, tive a sensação de estar ao seu lado, a construir cada uma delas. Portanto, nesta obra, sentimos a liberdade de brincar na rua, os segredos partilhados, a nostalgia, as conversas infindáveis; sentimos a passagem do tempo, a transição da infância, o crescimento e as novas aventuras, como se nos pertencessem. Porque «há espaços que são sempre nossos. E quem os habita, habita também em nós». E esta rua, «lugar que nos acompanha para a vida», é, então, um portal de «descoberta, alegria, tristeza e amizade».

Em suma, Os Da Minha Rua é palco para a inocência. Para o riso. Para as paixões e os primeiros amores. E para a família. A parte final transborda ternura. E, superando todas as minhas expectativas, contém também um glossário com expressões que podemos não [re]conhecer. É esta atenção ao detalhe que marca toda a nossa experiência literária, enriquecendo-a. E tornando-nos uma ramificação da sua essência.

Deixo-vos, agora, com algumas citações:

«A infância é uma coisa assim bonita: caímos juntos na relva, magoamo-nos um bocadinho, mas sobretudo rimos» [p:15];

«Às vezes ele aparecia no quintal sem fazer ruído e espreitava a nossa brincadeira sem corrigir nada. Olhava de longe como se fosse uma criança quieta com inveja de vir brincar connosco» [p:25];

«Durante muitos anos, para mim o mundo teve o cheiro daquele quintal maluco» [p:50];

«Mas quando acontecia era um dia rápido, porque os dias mágicos passam depressa deixando marcas profundas na nossa memória que alguns chamam também de coração» [p:54];

«Naquele tempo o tempo então passava devagar» [p:111].

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