![]() |
| Fotografia da minha autoria |
Tema: Duas pessoas que se odeiam ficam
12 horas fechadas num elevador
O mundo é um T0, como diria a Margarida, se estivesse neste cenário desconfortável. Porque, com tantas pessoas neste hotel, tinha que ficar presa no elevador contigo. Já me foste tudo. E, hoje, nem sou capaz de te encarar, por todo o desprezo que se vai acumulando. Mas a vida é muito irónica. Tão irónica, que foi, precisamente, assim que nos conhecemos: fechados no elevador, mas do Bom Jesus de Braga.
Resisto à tentação de te perguntar se recordas esse dia. Se te relembras do meu olhar deslumbrado perante a subida. Éramos dois estranhos - tal como agora, mas sem um passado comum -, dois viajantes solitários, apaixonados pelos recantos mágicos do nosso país. E o que é que se faz quando se está num lugar novo, sem alguém com quem partilhar experiências? Inicia-se conversa com a pessoa que se encontrar mais perto. Talvez te tenha assustado com o meu entusiasmo, porque procuravas um passeio mais sossegado. Porém, correspondeste com simpatia e acabamos por nos tornar autênticos aliados nesta aventura.
Enquanto a minha mente divaga, sinto o teu olhar de soslaio e evito corresponder, embora me apeteça. Porque precisávamos desse confronto. De explodir. De abrir as feridas. Passamos o tempo todo a tentar que não nos magoem, mas necessitávamos de nos quebrar o coração. Verbalmente. Porque a nossa forma de lutar foi em silêncio. Numa excessiva onda de cordialidade. Quando o amor esmoreceu, saímos do caminho um do outro sem dizer uma palavra, sentindo o fim. Hoje, isolados do mundo, sem sabermos por quanto tempo, oferecemo-nos a oportunidade perfeita para fazermos o que não fizemos há dois anos. Todavia, metade de nós é feita de orgulho e a outra de teimosia. Portanto, se bem nos conheço, continuaremos calados, em lados opostos, neste jogo de forças inconsciente e desnecessário. Ignorando-nos. E suplicando, por dentro, para que as portas se abram e nos libertem.
Levamos sete horas fechados e começo a sentir que já nem sei falar. Mas não cedo. Durante este tempo, já terminei o livro que trazia na mochila, ouvi a discografia do Rui Veloso e fartei-me de escrever notas no telemóvel, com ideias para possíveis histórias ou, quiçá, um reportório de respostas para te atirar à cara, se, finalmente, for adulta o suficiente para perceber que este nosso comportamento é insano. Eu sempre adorei jogar ao sério - e era uma forte concorrente -, mas, até para mim, isto ultrapassa qualquer medida de jogo. O problema é que me falta a coragem para ser eu a quebrar o silêncio.
Tu estás focado no teu portátil e eu acabo por adormecer. Por breves instantes, creio que terei alguma paz emocional. Mas engano-me. E salto de pesadelo em pesadelo. Acordo, depois, em sobressalto, com a tua mão sobre o meu ombro. Ao olharmo-nos, percebo que há algo que me queres transmitir, mas desistes quando, por fim, me endireito. E em boa hora o fizeste, porque as portas abriram-se e a equipa da manutenção estava ao nosso dispor. Sem perder tempo, saímos. Recusamos a assistência, porque estávamos bem. E fiquei a saber que estivemos fechados 12 horas. A minha expressão incrédula era o mínimo para esta situação de loucos. Como assim estivéssemos 12 horas no mesmo lugar, sem hipótese de fuga, sem qualquer tipo de comunicação? Eu sabia que o ódio conseguia ser poderoso. Mas rebentamos a escala. E tudo isto é só ridículo, surreal. Será que o alimentaremos para o resto da vida?
Era o meu último dia no hotel. Quando me desloquei à receção, para entregar a chave, vi-te sair com toda a tua bagagem. E quase corri para te apanhar, mas senti algo a deter-me. Não valeria a pena. Não depois da experiência absurda das últimas 12 horas. Por isso, desisti. Assim que cheguei à entrada, ouvi um sinal de mensagem. Eras tu!
- Precisamos de conversar...
Paralisei. Não sabia se deveria rir, insultar-te ou enlouquecer. Então, respondi a única coisa que me pareceu adequada, nesse momento:
- Só podes estar a brincar... Onde e quando?
