Muitos meses atrás, escrevi um texto no blog falando sobre a morte de uma língua. Entre outras reflexões, mencionei que ninguém sabia quem tinha dado origem ao Cromarty, mas todos lembrariam a pessoa que o levou consigo para o túmulo. O texto que fiz está aqui: https://homemdespedacado.wordpress.com/2012/10/05/quando-a-lingua-some/

Tomei conhecimento de outra língua prestes a se extinguir, Arvanitika ou Arberishte, que era falada na Grécia central, no Peloponeso e nas suas ilhas. Uma língua sem pessoas não consegue resistir à passagem do Tempo, ainda mais quando não tem um sistema oficial de escrita, não possui dicionários e nunca foi ensinada nas escolas. Ela se isolou entre as montanhas, e acabou sendo esquecida.

Os poucos falantes da língua ainda lutam para que ela não suma, apesar de saber que a sua batalha é inglória. Cada pessoa que morre leva consigo um pouco do Arvanitika. Os pesquisadores tratam de guardar o máximo possível de sons, mas a sua função é preservar para que a Humanidade saiba que, um dia, existiram pessoas que falaram uma língua já morta. Não pretendem ressuscitá-la ou salvá-la, sua tarefa é recordar.

arvanitika greece
Em outros tempos, falavam aqui Arvanitika.

No entanto, antes que a língua desapareça de vez, o poeta Yorgos Soukolis fez um poema em Arvanitika. Detalhe interessante deste poeta, nascido no vilarejo de Agios Yiannis, localizado em uma montanha da região de Coríntio, é que somente escreve poesias em Arvanitika. Sonha que as suas poesias consigam manter a língua viva, sonha que a força dos versos seja mais forte do que a sobrevivência das palavras que os formam.

Abaixo segue a poesia conforme foi registrada em áudio:

 https://soundcloud.com/worldlittoday/language-of-stone-by-yorgos-soukoulis-original-recording

Não é uma língua fácil. Dá para sentir as palavras raspando entre si, criando áreas de atrito. Escutando com máxima atenção e em uma sala escura, é possível captar a música ancestral que se desenvolve nas sombras dos versos. As vozes dos que já morreram. O ritmo invisível da ausência.

No entanto, mais do que tudo, é possível sentir o cansaço. A língua está desistindo das pessoas. Não realizou mais trocas, deixou o grego tomar conta e, em seguida, os idiomas estrangeiros invadirem as suas paragens. Durante algum tempo, foi útil e entoou versos heróicos, foi usada em discursos políticos, expressou medos, preocupações e esperanças. Formou famílias e também as dissolveu; começou conflitos, e os encerrou. Foi a base de cantigas de amor e disseminou ódios. Na sua juventude irresponsável, provavelmente debochou de Homero quando ele passou cantando a lira, espiou de longe as peças de Ésquilo e de Sófocles, tentou passar para o máximo de pessoas os ensinamentos de Platão, Aristóteles e Sócrates. Antes brincava com o vento e, hoje, vê as pedras esquecendo o seu som, vê o vento erodindo a sua memória, espalhando palavras soltas por entre tumbas que não existem mais.

O tradutor Peter Constantine traduziu o poema de Soukolis para inglês:

Language of Stone

I try to write something I have done,
I have lived, I have learned,
but I cannot remember a word once spoken by my ancestors,
Arberors speaking Arberishte.

I have no one to turn to who might help me remember;
if I cannot quite remember the word I will not write it.
Days pass, weeks pass, sometimes months, as I linger in mid-line.

I ask my people, friends who still know Arberishte,
if they remember how our ancestors once said a thing.
But I find no help, not once in a thousand.
when I last heard the word I have forgotten.

As I wake it is there and I write it
on a piece of paper I keep by my side.

A língua morre, palavra por palavra. O poeta quer a palavra perfeita que designaria algo, e não consegue. Fala com outras pessoas, também não ajudam. Tenta desesperadamente lembrar, mas ela se perdeu em alguma parte da sua recordação. Enfim, desiste e deixa a palavra morrer, mesmo sabendo que a língua ficará mais fraca e, amanhã, não tem nem ideia de qual palavra será irremediavelmente perdida. Será que gato deixará de ser gato? Será que o amor sumirá? Ou, talvez, tenha chegado o último dia do infinito?

Só quem lida com palavras e com a beleza delas sabe a dor que é ver uma língua morrendo. Imagino o pânico do poeta, que escreve palavras na areia e enxerga o vento as carregar consigo. Um poeta que corre contra o tempo, enquanto a sua língua, o material que usa para colocar a poesia no mundo, se esvai pela ampulheta.

Não consigo imaginar dor maior do que ser o último poeta de uma língua inteira, o depositário de todos os sonhos que centenas de pessoas acalentaram.

Aquele que presencia as palavras desaparecerem uma a uma – até que só resta o silêncio.