01

Jun12

Maria do Rosário Pedreira

Resolvi fazer a vontade ao leitor deste blogue, ASeverino, e fazer um post neste primeiro dia útil do mês de Junho sobre o que ando a ler. Pois bem, o último livro que terminei chama-se Furacão, foi escrito por Laurent Gaudé, que já ganhou o prémio Goncourt, e é uma homenagem fascinante aos que sofreram os efeitos do Katrina em New Orleans. É, pois, um livro sobre os negros na América (os brancos puseram-se a andar antes da catástrofe ou tinham casas resistentes) e, se quisemos, também um livro sobre a divisão de classes, o racismo e a escravatura. Conta a história de uma velha de cem anos que cheira a tempestade assim que acorda; de um homem que trabalhou numa plataforma de petróleo e viu o melhor amigo ser queimado vivo (nunca mais pregou olho); de uma mulher desencantada com um filho de seis anos que não comunica; de um grupo de prisioneiros que ficam sozinhos numa cadeia onde a água entra aos borbotões; e, finalmente, de um padre que interpreta a tragédia como um sinal de Deus e acaba mal. Belíssimas as vidas de todos eles – e bem assim as descrições da chuva e dos remoinhos de vento que levam tudo pelos ares, destroem as moradas dos pobres, fazem transbordar os rios, entopem os esgotos, arruínam os diques e espalham pelo cemitério crocodilos que se misturam com os animais do Zoo e os mortos. Um romance a várias vozes comovente e em defesa dos fracos, que recomendo vivamente, mesmo aos leitores que têm por hábito desconfiar da literatura francesa.