entre mulheres – diário de um lisboeta | Vera de Vilhena
Um homem vê-se só. Expulso de casa por trair a confiança da mulher. Os amigos celebram a sua liberdade, a disponibilidade para ser esse homem entre mulheres que os casados julgam ser a sorte de quem fica novamente solteiro. Uma última oportunidade de reviver a adolescência. Que busca Bernardo? Atira-se ele sofregamente à liberdade reconquistada? Não, procura uma nova âncora, de preferência a mesma.
Existe uma maldade que só funciona no feminino, quem se atreveria a criar um personagem de mulher traída que não só perdoa, mas concede tempo ao marido para resolver os seus recentes compromissos? Ou a vingança de Antónia? Uma lição sobre a perda, e de como numa relação podemos tirar ao outro mais do que nos pertence.
Sem inspiração, perdido numa vida que julga vazia de sentido, Bernardo procura retomar o velho projeto de escrever um romance. Só precisa de reunir as condições certas. Perante o leitor desfilam as habituais desculpas da encenação do gesto que precede a escrita, a caneta de aparo, a máquina de escrever mecânica, o apartamento de Cascais com vista para o mar… É sabido da nossa apetência pela fonte inspiradora do fado e, tal como diz a autora, A felicidade não favorece a literatura. A única felicidade permitida é a de chegar ao destino, será isso concedido a Bernardo? Quando revisita uma amiga de infância, que ainda vive na casa que pertenceu aos pais, depara-se com o quarto de infância transformado em atelier de trabalho; um atelier sem porta, por vezes é quanto basta.
A contemporaneidade desta escrita não se faz apenas das referências que invoca, temos o maila ocupar o espaço das cartas e as citações dos manuais de escrita criativa que, com eficácia e economia de tempo, substituem a leitura dos clássicos. O olhar que Antónia lança a Bernardo é resumido com a elegância de um curto apontamento: Senti-me digitalizado, até ao último pixel. O sentido de humor é uma das marcas da escrita de Vera de Vilhena, a que não escapa a ocasional troca do nome dos personagens, numa provocação ao leitor atento.
Se os sonhos copiam a realidade, são apenas uma deriva, e a literatura é essa deriva suprema, o sonho na mão, já que ao destino nos está vedado o seu controlo. Neste diário de um lisboeta cabem muitas histórias e a sua permanente reescrita, porque a realidade é sempre um compromisso.