(esse foi o texto de divulgação para um curso que ministrei em Santos em agosto-setembro de 2007):
“…demônios insepultos no ócio
Acordam do estupor, como homens de negócio,
Estremecem a voar o postigo e a janela.
Através dos clarões que o vendaval flagela
O Meretrício brilha ao longo das calçadas;
Qual formigueiro ele franqueia mil entradas;
Por toda parte engendra invisível trilha
Assim como o inimigo apronta a armadilha;
Pela cidade imunda e hostil se movimenta
Como verme imundo que ao Homem furta o que o sustenta…”
(Charles Baudelaire, O Crepúsculo Vespertino)
“Pelas ruas de Manhattan, vagueio ponderando
Sobre Tempo, Espaço, Realidade —sobre assuntos como esses
[ao lado deles pondero sobre a Prudência.
A última revelação sempre permanece por ser feita a respeito da Prudência,
Pequenos e grandes, semelhantemente, são impelidos em silêncio
[da Prudência que se ajusta à imortalidade.”
(Walt Whitman, Canção da Prudência)
Dois poetas contemporâneos, porém tão estranhos um ao outro, Charles Baudelaire (1821-1867) e Walt Whitman (1819-1892), e dois livros fundadores da modernidade poética, As flores do mal (1857) e Folhas da relva (1855), os quais, em comum, tiveram a mesma rejeição inicial, e depois a incorporação crescente de novos poemas, representando a síntese do trabalho de uma vida.
Como aproximar os 162 poemas de rigorosa métrica e rima, e no qual o urbano, o satânico, a sensação de saturação civilizatória e de tédio, e, por fim, o decadentismo, abundam, e os 383 poemas em versos livres, de ampla respiração, em que se parece renomear o mundo e em que o eu se torna o cosmo, abolindo fronteiras entre corpo e alma, cultura e natureza, vida e morte?
O objetivo deste curso é a aproximação pela distância, a comparação pelo contraste, a certeza de que Babilônia e Éden convivem igualmente em nossos corações e mentes.
Serão quatro aulas:
1ª aula- Contexto do surgimento das duas obras, características gerais, impacto na lírica moderna, comparação de poemas fundadores da poética de Baudelaire e Whitman (por exemplo, “Hino à Beleza” e “ Canção de Mim Mesmo”, respectivamente).
2ª aula- Whitman, o poema a plenos pulmões:
“Tece, tece, minha vida intrépida,
Tece ainda um soldado forte e pleno para as grandes campanhas que virão,
Tece o sangue vermelho, tece nervos como se fossem cordas, tece os sentidos, tece a visão,
Tece certezas duradouras, tece dia e noite, a trama, a urdidura, tece incessantemente, não te canses,
Não sabemos qual a utilidade, ó vida, nem sabemos o objetivo, o fim, nem de fato devemos saber,
Mas sabemos o trabalho, a necessidade contínua que há de prosseguir a marcha da paz
[ envolta na morte tanto quanto a guerra contínua,
Pois as grandes campanhas de paz são tecidas com o mesmo fio metálico,
Não sabemos por que, nem o que e, contudo, tece, para sempre tece.”
3ªaula– Baudelaire e os “quadros parisienses”: tropeçando em palavras como em calçadas:
“Aquilo que os homens chamam Amor é coisa bem pequena, restrita e frágil, se comparada a essa inefável orgia, a essa santa prostituição da alma entregue por inteira, poesia e caridade, ao imprevisto que surge, ao desconhecido que passa.” (Spleen de Paris)
4ª aula- Filiações e parentescos: Poe como ponte, Pessoa como ponto de encontro.





