Brancos de Moçambique | Fernando Tavares Pimenta

Este livro aborda o papel dos colonos no processo político de Moçambique, desde a oposição a Salazar até à independência do território. Essa oposição nasceu do descontentamento com a ineficácia de Lisboa que impunha sérios entraves ao desenvolvimento da colónia, impedindo a sua industrialização e comprometendo as legítimas expectativas da população branca, asiática, mestiça e negros assimilados.

Os períodos eleitorais, onde uma certa tolerância das autoridades permitia alguma organização de grupo e acesso mitigado à imprensa, eram aproveitados pelos colonos para solicitar mais autonomia na governação dos destinos de Moçambique, chegando mesmo a ser proposto uma solução do tipo federativo, pilotada pela minoria branca, coajudada pelo resto da população civilizada. Um processo que manteria uma permanente ligação a Portugal.

A caracterização destes movimentos ocupa parte significativa do livro. Ficamos também a conhecer a sua posição em prol da maioria negra e a tímida defesa do seu acesso à cidadania (a população indígena representava 97% da população em 1970), tendo-se destacado a ativista Sofia Pemba Guerra e, mais tarde, Almeida Santos. A repressão e deturpação dos atos eleitorais fez com que se perdessem os laços com a elite negra que passou a desconfiar da presença portuguesa. O falhanço da Primavera Marcelista deitou a perder toda a esperança numa abertura ao diálogo por parte do governo de Lisboa, não deixando outra alternativa à Frelimo que não fosse a de recorrer à luta armada. A demonização deste movimento, apelidado pelo governo de Lisboa de terrorista, e a desmobilização dos oposicionistas, ditou a escassa representação branca na Frelimo, com trágicas consequências para a população de origem portuguesa no momento de negociar com este movimento os termos da independência de Moçambique.

O papel do engenheiro Jorge Jardim merece também particular atenção; de apoiante do regime e ex-secretário de estado de Salazar, passa a oposicionista. Ao perceber que a guerra estava perdida, por sua própria iniciativa, inicia negociações com elementos próximos da Frelimo com vista à independência do território e criação de uma sociedade multirracial; mesmo contra Lisboa se tal fosse preciso. A revolução de 25 de Abril pôs termo a esta iniciativa e conduziu à independência do território, não sem antes existir alguns recuos, tentativas de dilatar o processo no tempo ou mesmo uma intentona de cessação branca. Os ventos da história não estavam para aí virados. Portugal chegou demasiado tarde ao processo de autonomização do seu “ultramar” e perdeu a voz no momento negociar. Interessante também o papel de Mário Soares que assinou com Melo Antunes e Almeida Santos o que já havia sido acordado previamente com a Frelimo e mantido em segredo por Melo Antunes.

O êxodo da população branca, asiática e mestiça encerra o período do colonialismo de povoamento português em Moçambique. Um livro que desfaz muitos dos mitos e mal-entendidos sobre a presença portuguesa em Moçambique.

 sobre o livro      publicado na revista Justiça com A