Fotografia da minha autoria

«Um clássico da literatura americana»

Fevereiro traz no seu regaço uma celebração particular, uma vez que, nos Estados Unidos da América, é o mês da Black History, procurando assinalar «as concretizações dos negros na sua História». Como acredito que há datas e lutas que devem ser transversais a todas as comunidades, resgatei da minha estante o livro de Alice Walker, que não só é a seleção do Clube de Leitura Leituras Descomplicadas, como também pertence à lista de obras que pretendo ler antes dos trinta.

«Ela tem medo. Mas eu digo pra ela Eu tomo conta de ti»

A Cor Púrpura, escrito num registo epistolar, é um manifesto contra o ódio, a desigualdade e a violência. Embora nos receba com um autêntico murro no estômago, visto que apresenta um relato cru dos acontecimentos, não deixa de acalentar uma certa dose de ternura e inocência. Ainda assim, não posso prosseguir sem alertar para a presença de gatilhos, porque são claros os abusos - sexuais e emocionais -, o desrespeito pelas mulheres, a crueldade e a ponte com um passado de escravatura. Há um traço desumano que nos revolta e que nos faz repensar os nossos comportamentos em relação aos demais, por isso é que esta história permanece tão atual. Porque, enquanto a cor de pele for mais importante, serão sempre mais os muros a separar-nos.

«Mas eu não sei lutar. Só sei me manter viva»

A palavra de ordem parece ser sobreviver. No entanto, a autora construiu uma narrativa de contrastes, mostrando que há mais mundo para além do conformismo e da submissão. Assim, gradualmente, vamos sendo confrontados por uma bela metamorfose da nossa protagonista, que descobre a sua voz. Escrevendo cartas a Deus, na tentativa de entender o que está a acontecer na sua vida, é na companhia de Sofia e, sobretudo, de Sugar que Celie floresce, libertando-se dos fantasmas do passado. E é este vínculo que evidencia o forte impacto da sororidade.

«Ter alguém pra onde fugir. Uma ideia tão doce era insuportável»

Este livro, para além de se centrar no racismo e na violência, também foca os efeitos de uma educação precária. Contudo, um dos aspetos mais fascinantes da tradução de Tânia Ganho é a ressalva da existência de marcas de oralidade da comunidade negra rural - aliás, uma escolha que provém da própria Alice Walker -, aproximando-nos do contexto das personagens. Portanto, como alguém mencionou, «é a arte a imitar a vida», incluindo-nos no processo com outra intimidade, até porque revela um nível de honestidade e vulnerabilidade que nos desarma.

«Nunca ninguém me amou, digo»

A Cor Púrpura é uma viagem intensa e bastante emocional, na qual se expõem medos, dúvidas e desejos, ao mesmo tempo que se promove um reencontro espiritual. E é, acima de tudo, uma demonstração de redenção, de empoderamento e de amor. Principalmente, o próprio. Porque, por vezes, sentimos que algo é errado, mas não possuímos meios para inverter essa condição. Apesar disso, quando se cruzam verdadeiros caminhos de empatia e fraternidade, o destino pode ser distinto, permitindo-nos recomeçar. Mesmo que o mundo nem sempre seja um lugar seguro, há pessoas que se transformam numa casa inquebrável.

«Toda a gente aprende alguma coisa na vida»

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