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| Fotografia da minha autoria |
Tema: Livros Banidos
A literatura deveria ser uma arte livre, porque representa distintas realidades e identidades. Além disso, em muitos exemplares, é a nossa voz, quer nos sonhos, quer nas denúncias. No entanto, a censura - evidente ou camuflada - continua a existir. Hoje, talvez menos, mas não foi totalmente erradicada - atentem, por exemplo, no que aconteceu na Bienal do Livro, no Brasil. Porque os livros têm poder. A começar pelo facto de nos predisporem à argumentação e ao pensamento próprio. E isso pode ser assustador para entidades que não nos pretendem tão cultos. Assim, idealizando um desafio diferente, o tema deste mês para o The Bibliophile Club privilegia os livros banidos, independentemente do motivo e da altura em que sofreram essa condenação.
Hesitei na minha escolha, até porque não estava plena de todas as possibilidades. Contudo, depois de alguma pesquisa e de observar a minha estante, compreendi que era a ocasião perfeita para me estrear no encantado universo de Harry Potter. A saga de J. K. Rowling, que marcou tantos leitores, causou algum desconforto «em diversas religiões, chegando a ser banida das escolas privadas nos Emirados Árabes Unidos, sob a justificação de que incentivaria à bruxaria». Tenho um profundo respeito pelas crenças de terceiros, mesmo que possa não as compreender, mas acredito que existem circunstâncias em que as nossas convicções nos cegam, implicando, inclusive, uma distorção da mensagem. Portanto, é crucial separar a realidade da ficção, para que não se perca a inocência - e a beleza - de certas narrativas.
Harry Potter e a Pedra Filosofal abre-nos a porta para um mundo mágico. Deslumbrante. E rico em contrastes. Tinha receio de não me identificar com o enredo, por se iniciar numa fase da vida das personagens que já não é a minha, mas descobri que era uma preocupação infundada, sentido-me mesmo a crescer com o seu desenvolvimento, pois há uma carga emocional e de aprendizagem que se cola à nossa pele. E foi maravilhoso abraçar todo o imaginário criado pela autora, uma vez que nos faz ter uma breve ilusão de estarmos no centro de cada ação. Com uma escrita simples, fluída e que aposta nos detalhes e nas descrições certas, várias foram as vezes em que me julguei em suspenso e a desejar estar em Hogwarts e, até, na Floresta Negra, porque arranca-nos da nossa zona de conforto e lança-nos, quase sem rede, para a resolução de problemas e conflitos [internos e externos]. E é possível sobreviver no meio do caos, como tão bem nos ensina Harry.
Há sempre quem nos atrase. Mas também há sempre quem nos guie e nos impulsione a avançar. E, neste livro, percebemos o verdadeiro significado de amizade. Compreendemos o impacto que o amor tem em nós. E desconstruímos a ideia de que é o sangue que marca o nosso sentido de pertença, porque a família podemos ser nós a escolher, sobretudo, quando a que nos resta nos falha. O medo de não se ser aceite é palpável, mas a audácia da personalidade leva-nos a encontrar o nosso lugar, as nossas pessoas, o nosso refúgio. A caminhada tem inúmeros contratempos, no entanto, permite que se lide com a frustração, a rejeição, a maldade, a novidade e com a própria história de vida. Transpondo valores do mundo real para o mágico, quebra-se a imagem estereotipada do Herói, ao mesmo tempo que se luta contra questões como o bullying, o não saber quem somos e o legado sombrio, que nos deixa em estado de alerta. Porque o perigo está sempre por perto.
Harry Potter e a Pedra Filosofal não é um livro infantil. É um manifesto sobre condicionantes do quotidiano, tendo em conta que J. K. Rowling explora temas como os abusos e os maus tratos de crianças, os preconceitos, a discriminação, a divisão de classes, a inveja, o egoísmo, a procura pela perfeição, a competição - nem sempre saudável. Só que a camada que os eleva traz um brilho diferente, sem os romantizar. Rica em pormenores, humor, criaturas fantásticas e personalidades vincadas, esta obra também nos sensibiliza para o sentido de comunidade e para a possível falácia das primeiras impressões, pois «há certas coisas que [só] depois de partilhadas nos obrigam a gostar uns dos outros». O tempo não para. Há feridas que saram. Mas algumas cicatrizes nunca chegam a desaparecer.
Deixo-vos, agora, com algumas citações:
«Mr. Dursley ficou pregado ao chão. Tinha sido abraçado por um indivíduo que lhe era totalmente estranho e que lhe tinha chamado "Muggle", fosse lá isso o que fosse. Estava confuso» [p:12];
«Harry tinha a sensação de que acabara de descobrir onde se encontrava naquele momento o pacotezinho de aspeto sujo do cofre setecentos e treze» [p:137];
«Usa sempre o verdadeiro nome das coisas. Recear um nome aumenta o medo que se tem dele» [p:245]
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