Edmund De Wall
A Lebre de Olhos de Âmbar
Sextante
Tradução de Maria Lúcia Lima

Não temos como saber se os livros que hoje elevamos à categoria de obras imprescindíveis manterão esse estatuto daqui a, digamos, cem anos (na verdade, nem daqui a três dias, mas essa é uma outra história). É possível, no entanto, fazer o exercício de os escrutinar, descobrindo neles a herança que se ambiciona viva nesse futuro mais ou menos longínquo, uma espécie de memória assegurada que inclua tudo aquilo que não parece aceitável perder-se. A Lebre de Olhos de Âmbar tem nessa herança um papel fundamental, não só pelo seu modo particular de percorrer a história do último século e meio, mas sobretudo por saber fazê-lo sem as tentações de retrato perfeito a que tantas sagas familiares e romanescas cedem.

Os netsuke, pequenos bonecos japoneses que Charles Ephrussi compra para a sua colecção no século XIX e que hão-de atravessar os anos até ao presente, são o fio condutor de uma narrativa que anda por Paris, Viena, Odessa ou Tóquio, reconstituindo a vida de uma família judaica à medida que se enfrenta com as pequenas decisões quotidianas e com os grandes abalos da história (da queda do Império Austro-Húngaro à ascensão da infâmia nazi). Delicada como os netsuke, atenta ao quotidiano e aos detalhes sem com isso abandonar o contexto, a prosa de De Waal é racional mas também esplendorosa, confirmando a cada passo que a memória não é a mais delicada das matérias literárias pelo seu potencial de rememorar o passado, mas antes pela parte de leão que garante na construção de um futuro.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Time Out, Nov. 2012)