(resenha publicada de forma mais condensada em A TRIBUNA de Santos, em 03 de abril de 2012)
“Quando eu morrer/ Vão lamentar minha ausência/Bagatela/ Pra compensar o presente/Em que ninguém dá por ela” (Poeminha com saudade de mim mesmo); “Me elogia, vai!/Escreve um troço, aí!/ Não dói não; faz de conta/Que eu morri”(Poeminha sem objetivo).
Nos últimos dias, o Brasil perdeu dois mestres do humor: Chico Anysio e Millôr Fernandes. Lembro, com relação ao segundo, de como eu era bobo lá pelo início dos anos 80, e comecei a colecionar a série “Literatura Comentada”, da Abril Cultural: fiquei espantado em ver um autor piadista e humorístico incluído numa mesma coleção em que figuravam Machado de Assis e Carlos Drumond de Andrade (em contrapartida, não me causou espécie a inclusão–que deve ter indignado muita gente de feição mais acadêmica e careta– de Chico Buarque ou Caetano Veloso, que eu ouvia o tempo todo na época, o que mostra que nossas percepções são sempre permeadas pelos nossos gostos). Espero ter ficado menos bobo.
E um país onde baluartes da moralidade no congresso pedem que amigos bicheiros paguem para eles o frete de um táxi-áereo, entre outras ações duvidosas, precisa desesperadamente de talentos desse naipe. O país que,em suas mazelas e fisiologismos, não é sério, precisa mais do que nunca da alta seriedade do humor de primeira.
É quase impossível mapear o legado de Millôr. Confesso que conheço pouco sua obra teatral própria, mas poucos tradutores do gênero foram tão importantes ou podem se orgulhar tanto do rol de traduzidos: Moliére, Racine, Tchekhov, Shakespeare. Comentando sua versão brilhante de Rei Lear, já afirmei que Millôr vertia peças clássicas para que funcionassem no palco (eu mesmo, como professor tive uma ótima experiência com a leitura em voz alta do seu Hamlet em classe, com a antiga sétima série, agora oitavo ano, na Escola da usina Henry Borden em Cubatão:) em português, e isso é um feito e tanto.
Além disso, há a perspicácia, a ironia corrosiva, a falta de complacência com que acompanhou como jornalista, chargista, cronista e poemista a vida nacional das últimas décadas. Com seu assombroso poder sintético, suas frases mínimas, seus trocadilhos e inversões maravilhosos (“pé em deus e fé na tábua”, por exemplo, ou então: “No princípio era o caos/ou é agora?”), que só encontram par em Oswald de Andrade, ele se prestava a ser citado, a estar na boca de qualquer um, às vezes sem a pessoa sequer ter consciência de saber que o estava citando. Não há área, cotidiano, política, sexualidade, questões essenciais do ser humano, para a qual suas sequências de poemeus ou poeminhas, como gostava de caracterizá-los, não deem seu pitaco: “Mentira, dizer que a idade/ Nos torna mais aptos ao amor/ Mais sensíveis ao seu/ Sabor e valor./ Os que fazem da meia-idade/ O supremo da vida/Ainda força e muita experiência/ Estão querendo iludir/A própria essência/ Do tempo./Querem/ Pálida compensação/ Pros dias em que amavam/ Sem jeito e sem razão./Não topo essa mentira—/ Eu não!/ O que quero é deter/ O ponteiro fatal/ Que, aliás, nem existe mais/ Em meu relógio digital.” Nos Poemase na Bíblia do Caos-Millôr Definitivo, são inúmeros os exemplos de pérolas do tipo Coragem é isso, bicho!: “Eu sofro de mimfobia/ Tenho medo de mim mesmo/Mas me enfrento todo dia”; ou o petardo mortífero de Conselho à moda da casa: “Madama/ Não infunda/ Uma minissaia/Numa maxibunda”. Se as popozudas lessem Millôr…
Ele ainda se deu ao luxo de produzir centenas de Hai-Kais. E sempre do seu jeito: virando tudo do avesso, mas com o rigor que a forma pede, usando o molde para dinamitar o caos instituído: “É meu conforto/Da vida só me tiram/Morto”; “Probleminhas terrenos:/ Quem vive mais/ Morre menos?”; “Maravilha sem par/A televisão/Só falta não falar”;”Ao anoitecer/Um tiro evita/ O envelhecer”; “Na visa, o gozado/ É que nem o palhaço/ É engraçado”; “Vida rural, senhor/ É ver vacas/Na tevê em cor”; “Será que o doutor/Cobra pela cura/ Ou cobra a dor/”; “O pobre com seu gemido/Nem acorda/ O pão dormido” e por aí vai…
E um Hai-Kai que serve como uma luva aos nossos juízes com medo de devassas nas contas do judiciário: “Lá está o magistrado/ Com seu ar/De injustiçado”.
Fazendo conta que você morreu, mestre Millôr, como é que alguém pode não dar por sua presença no mundo? 1923-2012: Os millôres anos de nossas vidas.








