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Aníbal Aquilino Fritz Tiedmann Ribeiro (Paris, 26 de Fevereiro de 1914 - Moimenta da Beira 1999). Fruto do casamento com a alemã Grete Fritz Tiedmann.

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Fragmentos da Entrevista concedida por Aquilino Ribeiro a Lília da Fonseca* (1906-1991)
 
«A raposa é uma personagem histórica. No romancinho que escrevi, costeio a sua crónica, o mais livremente e originalmente que posso, não esquecendo as qualidades que lhe são notórias e derivam das condições de luta e dos dons com que a natureza a dotou: ardil, sagacidade, audácia. O meu livro tende a mostrar às crianças a que me dirijo, acima de dez anos, o mecanismo interno da astúcia, um pouco a astúcia de Ulisses, havida, sob determinados aspectos, como boa e sempre admirável, e por extensão a velhacaria social. Prefiro que se conheça a hipocrisia a que nos surpreenda, tal a víbora, escondida num tufo de ervas ou mesmo de flores, quando pomos o pé. Claro que procurei contar a história de tal vivente pela forma mais amena e empregando tons cor-de-rosa: ESTA É A HISTÓRIA DA RAPOSETA, PINTALEGRETA, SENHORA DE MUITA TRETA...
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«O meu livro infantil de êxito foi O ROMANCE DA RAPOSA. A Jane Bensaúde devo a honra desvanecedora, embora imerecida, de considerá-lo uma obra-prima. É evidente que a minha personagem tem este encanto: existir, ser conhecida, e eu pôr à vista a sua relojoaria íntima, engenhosa e arteira, e cada criança admirar nela as habilidades da nossa espécie para subsistir e impor-se na natureza, que não tem simpatias especiais para nenhum dos seus seres.
Os contos de fadas, a meu ver, representam um perigo, neste nosso  mundo de hoje, tão realista. Prefiro predispor as crianças para a vida da luta que para o sonho e a idealidade abstracta, sem ramo em que a ave azul ponha o pé.»
 
«Tive dois ilustradores extraordinários para os meus livros: um, Mestre Benjamin Rabier, francês, o primeiro lápis de todas as grandes revistas parisienses da especialidade, que expressamente fez os desenhos a cores. Custaram uma fortuna ao meu sempre saudoso e querido editor Júlio Monteiro Aillaud. O outro foi um rapazinho a sair da escola, Jorge Matos Chaves, hoje arquitecto ilustre, que pôs na ARCA DE NOÉ tudo o que lhe sugeria a sua imaginação fresca, colorida e original.»
 
«Penso muito bem das ilustrações dos meus livros, que suponho sob certos aspectos superiores ao texto.»
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«Para os meus dois filhos escrevi: «Romance da Raposa» e «Arca de Noé, III classe», que em dia de Natal meti no sapatinho de cada um. Acabei para estas alegrias puras. Agora só manipulo drogas complexas para as pessoas grandes. Dizia Mme. de Staël: Si vous voulez que je vous aime rendez-moi l' âge des amours. E é o caso pavoroso.»
 
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                                                                           «Os Nossos Filhos»
                                                                          LÍLIA DA FONSECA
 [ * ] Lília da Fonseca (1906–1991)
(Maria Lígia Valente da Fonseca Severino)
Jornalista, escritora e feminista portuguesa, nascida em Angola (Benguela). Figura ímpar e multifacetada dedicada à escrita e à intervenção cívica. Na bibliografia destaca-se a literatura dedicada aos mais novos, tendo o “Prémio João de Deus” sido atribuído a dois dos seus livros: O malmequer das cem folhas (1960) e O livro da Teresinha (1970). Empenhou-se como cidadã em várias áreas, sendo a primeira mulher a integrar uma lista de candidatos da oposição às eleições legislativas portuguesas, durante o Estado Novo, em 1957.