Todos os dias, o meu perfil no Facebook e o email são encharcados por vídeos pseudo-motivacionais e mensagens edificantes. Existem pessoas, inacreditáveis seres, que acordam e passam boa parte do dia bolando vídeos, sincronizando músicas e escolhendo textos com mensagens de estímulo para, depois, oferecê-los graciosamente pela internet. Sou um absoluto descrente na bondade humana, aquele sentimento genuíno de praticar a ação correta, pois percebo que sempre existe um motivo por trás de tamanho altruísmo e, geralmente, é a mais pura vaidade ou egocentrismo. Admiro mesmo são as pessoas que não falam que praticam o bem e o realizam nas pequenas condutas da sua vida, quase sem propaganda, no mais singelo dos silêncios.
Vídeos e mensagens quase nunca me comovem. Ao passar pelo filtro da minha descrença, eles são mastigados, deglutidos, separados e muita pouca coisa da intenção original sobra no fim.
Por este motivo, não deixa de ser espantoso que o presente vídeo que segue, de longuíssimos 07 minutos e 08 segundos (minha atenção normal não permite a perda deste latifúndio de tempo com um vídeo da internet), tenha sido o vídeo que mais me arrepiou, motivou e fez sentir bem nos últimos anos. Por não ter sido feito com a intenção de parecer motivacional, ele acabou se tornando um louvor à vida. Olhem aí:
Observem. Olhem a elegância, o porte da cheetah. Como cada músculo é flexionado com vagar, quase preguiça, impulsionando o corpo em um movimento inexorável. Observem como o corpo se estende no ar e os ossos se cravam contra a pele, revelando a estrutura que move a vontade. Olhem o ondular dos músculos, a música que eles cantam enquanto se ativam. Sintam a poesia mexendo-se dentro da corrida. Cada passo aparenta ser o mais importante da sua vida, cada perna é esticada até o limite máximo que pode alcançar. Se eu tivesse que pensar no vento materializado em carne, na representação de um cataclisma, no ribombar do sangue infinito, eu pensaria nesta cheetah.
No entanto, o que mais me encanta é a imobilidade do pescoço. O olhar fixo. A absoluta concentração com que a cheetah se desloca. Nada mais importa. O mundo deixou de existir. Nada mais é. Tudo apagou.
Muito se pode aprender com esta atitude: manter o foco. Não desviar do objetivo. Não estremecer diante das dificuldades. Não pensar, não errar – simplesmente correr. A certeza com que a cheetah se desloca não deixa espaço para a dúvida. O seu olhar não desvia; ela está mirando o objetivo, e cada passo a aproxima mais de onde deseja chegar. Às vezes, a pata estendida chega a roçar o objeto desejado, chega a quase alcançar o sonho, mas não consegue, e isto não impede a continuidade da corrida. Por mais que o objetivo tente se afastar, ela sabe que vai alcançá-lo. Sabe, por que está com a visão fixa para a frente e o pescoço é a única parte do corpo que não se move de forma alguma.
Nestas horas, eu lembro de Schopenhauer. Algumas pessoas dizem que eu sempre lembro dele, mas estariam erradas, pois só lembro em algumas ocasiões. Em “A arte de ser feliz”, Schopenhauer, ao discorrer sobre a sabedoria da calma, afirma: “aquele que mantém a calma diante de todas as adversidades da vida mostra simplesmente ter conhecimento de quão imensos e múltiplos são os seus possíveis males, motivo pelo qual ele considera o mal presente uma parte muito pequena daquilo que lhe poderia advir: e, inversamente, quem sabe desse fato e reflete sobre ele nunca perderá a calma”. A calma da cheetah e a certeza da sua corrida são típicas de alguém que sabe ser invencível, impossível de ser tocado pelo mal ou pela inveja. Ela não possui medo ou incerteza, atingiu a calma dentro do espírito. Nem tanto pelas atitudes, pois está correndo o mais rápido que um ser pode correr no mundo, mas aquela calma interna que vem de saber quem é, quais as suas capacidades e qual o objetivo desejado. No meio do frenesi da corrida, a cheetah mantém a unidade. O resto do mundo continua se mexendo, mas ela nem sente. Por que não importa – ela é quem faz o tempo dela e, quem consegue esta proeza, possui todo o tempo do mundo.
Eu sei que este não é um vídeo tolo que vai ajudar qualquer um. Sequer pode ser chamado de motivacional. Mas, se a pessoa se concentrar no movimento quase hipnótico da cheetah, talvez entenda por que Borges dizia que Deus escreveu a história do Universo na pele dos jaguares. Talvez entenda por que, não importa o que acontecer, o único objetivo que realmente devemos ter é manter o foco, a espinha estendida e o pescoço rígido, enquanto os olhos nunca mexem, nunca desviam. Nunca desistem.

Publicado por Gustavo
Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo
