Futebol
[Do ingl. Football]Cada um dos vários jogos esportivos disputados por dois times, com uma bola de couro, num campo com um gol em cada uma das extremidades, e cujo objetivo é fazer entrar a bola no gol defendido pelo adversário
Modalidade de futebol disputado entre duas equipes de 11 jogadores, num campo retangular, com o comprimento máximo de 120m e mínimo de 90m, e largura máxima de 90m e mínima de 45m, no qual é vedado aos jogadores, exceto ao goleiro, tocar a bola com as mãos, e em que os pontos são marcados por gols. As equipes são geralmente distribuídas em goleiro, zagueiros, meio-campistas e atacantes, dispostos de acordo com o esquema tático.
Estilo e técnica de jogar futebol. Ex. O futebol do Brasil tem renome internacional; O Futebol de Garrincha era divino
Uma das marcas da língua brasileira, em oposição à portuguesa, será ter encontrado um anglicismo que a invadiu tão completamente a ponto de se tornar uma extensão sua, uma palavra que tão inteiramente a defne.
O futebol, brinquedo do espaço, invenção precisa do movimento, contradição do tempo, batata-quente em que a morte é passada de um pé ao outro, esperando finalmente ser derrotada- a comemoração do gol é a comemoração da vitória contra o arbítrio e a inevitabilidade do fim. Certamente não tem espaço em meio às listas de maiores invenções da humanidade. Em parte será porque o gênero quantitativo tem expectativas muito próprias, parâmetros exclusivos que usa para julgar suas definições- uma definição muito rala e preconceituosa do que é que se constitui como utilidade. Mas mais importante, de fato, é o fato que o jogo simplesmente não é uma invenção.
Enquanto existir no mundo uma forma redonda e um pé para chuta-la é natural que este brinque com a esfera, e comece a conduzi-la em seus tropeços. Enquanto forem pressupostos objetivos- o que também não é garantido- seguir a trajetória de uma bola será sempre o melhor caminho para alcançá-los. Naturalmente, daí surgirá um zagueiro, surpreendentemente, num carrinho desleal, para impedir que o objetivo seja alcançado, e assim tem seu começo a partida. Se inventam regras, arquibancada, juiz com cabelo lambido, cartão vermelho, dimensão do campo, limite, altura da grama, técnico interino, altitude em alguns lugares e não em outros, torcida, depois nomes diferentes que repartem essa entidade e fazem de cada parte uma coisa nova. Se inventam noventa minutos, zebras, vira-casaquismo, superstição, cera durante os acréscimos- se inventam “O campeão voltou” e “Eu a-cre-di-to”,e um novo campo de batalha para que os Estados-nação substituam a estratégia das trincheiras, mas o jogo desde sempre existe, jogado à revelia de tudo.
O futebol tem muito das touradas, conforme o jogo se desenrola numa disputa entre a vida e a morte. Trata-se de um esporte real, aristocrático. A simplicidade dos movimentos tem uma classe que não pode ser igualada em nenhum outro tipo de disputa. A técnica do futebol é a síncope da técnica de todos os outros esportes. O pé conduz o passe forte e bem colocado como se fosse uma tacada precisa. Em cantos opostos do gol uma falta batida da entrada da área pode morrer como uma bola rápida de quatro costuras ou como um arremesso de efeito. Nenhuma ação no futebol é inventada. O futebol, numa paráfrase de Faulkner, não será uma coisa, mas uma inteligência conjunta, um espetáculo que conduz os corpos e lhes dá novas formas.
Nem todos gostam de futebol, e é perfeitamente compreensível. Dez pessoas ao seu lado já formam uma multidão quase incomensurável. Mais onze olhares tenebrosos, um estampido que desperta pelo simples crime de ter nos pés o tesouro desejado, mesmo que não se saiba o que fazer com ele, fazem com que receber a bola seja colocar-se diante do paredão de fuzilamento. É impossível, contudo, encontrar alguém que não goste de chutar uma bola, ou de conduzir uma bola, ou de empurrar uma bola com qualquer parte do corpo que dela esteja a seu lado, ao rés do chão, no seu mesmo nível. Nenhum ser humano é tão cachorro quanto tocando uma bola até um gol imaginado numa parede.
A bola é uma realeza. O mundo inteiro existe dentro de sua circunferência. Onde não existe nada o seu movimento faz nascer três traves, uma rede e goleiro. Faz nascer onde só existia a apatia medo, valentia, ansiedade, um canto apaixonado, um passe vindo de ninguém, e até um troféu que ganhar. Faz nascer um minuto decisivo, em que sai o gol, onde não existe tempo. A bunda rebunda. A bola rebola. Assim como o instante do amor faz nascer um novo tempo, um cosmos seu, também à sua maneira um universo surge na perseguição de uma bola.