ilustração de Ligia Zylbersztejn “O tempo prevê retornar o ponto, recuar, refazer, ir devagar, mudar a direção, digressão, digestão, tessitura de diversificadas paciências. Sibélia Zanon No sofá da sala, olho as mãos tecendo. Quando a talagarça, a linha ou os óculos falham, emaranha-se um nó. Aí, o trabalho é dobrado. Desfazer o feito é mais complicado do que simplesmente tecer. As marcas das mãos desnudam histórias. Na natureza, toda maturidade é pontuada. A casca da banana ganha pintas pretas. Os troncos ganham anéis. A pele ganha desenho de fragilidade.Quem diz que a força é tudo quando é preciso retroceder o ponto com humildade? O tempo prevê retornar o ponto, recuar, refazer, ir devagar, mudar a direção, digressão, digestão, tessitura de diversificadas paciências. Na fila de retirada de medicamentos, o senhor comunicativo me mostra as duas mãos abertas e conta que o dedo anelar dói mais. Pode ser a mudança do clima e pode ser qualquer outra invisibilidade. O remédio anterior não era bom para a artrite, o atual é caro, a burocracia para consegui-lo de forma gratuita é enorme, o salário cada vez mais mínimo.Diante das mazelas eu já não era a única ouvinte e a fila intimista se unia numa roda, que circulava por assuntos como recomendações médicas, preenchimento de papeladas burocráticas, postos de saúde mais ou menos atenciosos e outras dores mais. Até que um movimento interno nos tirou do circular. O senhor de casaco xadrez levanta o braço, apontando a viga de ferro, que sustenta as telhas bem acima da minha cabeça. Além de sustentar o telhado, ela sustenta algo mais: um ninho cuidado por dois pássaros, um chocando, o outro atento assessorando. As dores deram lugar às adivinhações. “João-de-barro?”, pergunta um. “Sabiá?”, sugere outro. Mazelas desaninhadas, a roda ganha novo tom e a previsão do tempo passa a sinalizar menos penas e mais voos.