Figura 1 – O picadeiro de circo estilizado montado na frente da Igreja da Ordem em Curitiba.

Fonte: Acervo das autoras – Estreia nacional do espetáculo  no 20º Festival de Curitiba

Entende-se por farsa uma forma de comédia com a apresentação de situações que pendem para um cômico “grotesco e bufão, um riso grosseiro e um estilo pouco refinado” (PAVIS 1999: p. 164). Apesar de não ter escrito farsas, Shakespeare escreveu comédias que podem ser encenadas de modo farcesco, dentre elas A comédia dos erros (1594) e A megera domada (1596). Nas peças históricas, o farcesco se manifesta na criação da figura de Falstaff, um personagem glutão, fanfarrão e cheio de vícios e, em menor escala na caracterização do personagem-título de Ricardo III, apontada por diversos críticos como derivada do Vício medieval ³. Acreditamos ser provável que a ênfase no farcesco na composição do Ricardo brasileiro se originou a partir desse tipo de comentários da crítica shakesperiana.  


³Bernard Shaw (1906) e outros críticos, como A. P. Rossiter (1961) e Bernard Spivack (1958), apontaram que a peça histórica de Shakespeare se aproxima da comédia farcesca, em virtude do caráter caricato de Ricardo, derivado do Vício medieval. Shaw comparou Ricardo com Punch, um fantoche do tradicional teatro popular de marionetes "Punch e Judy” que diverte a plateia, mas  é incapaz de atingir a profundidade e o pathos exigidos de um protagonista trágico (SHAW, 2013, p. 130-131).

 
 

        O grupo Clowns de Shakespeare objetiva desmistificar e popularizar Shakespeare no espaço da rua, um locus privilegiado para reciclagens e negociações culturais.

Nesse sentido, para adequar seus espetáculo a plateias que transitam em espaços públicos, a trupe potiguar trabalha com gêneros, formas e estilos variados, como as gags e as grotesquerias do circo e do circo-teatro; as máscaras e as técnicas farcescas herdadas da commedia dell’arte; a apropriação e a reinvenção cênica do cordel; a mímica e o teatro de bonecos; a adaptação de técnicas experimentais mais sofisticadas herdadas de teatrólogos como Bertolt Brecht, Jerzy Grotowski, Augusto Boal e Eugenio Barba; a reconfiguração de convenções cênicas elisabetanas, dentre elas o travestimento; e a musicalização da cena que assume importantes funções expressivas e narrativas na transposição cênica. Essas estratégias são enriquecidas pela estética barroca de Villela que prima pelo excesso e o contraste de cores encontrado nos inúmeros objetos de cena, nos adereços, nos figurinos e nos cenários. Deste modo, Villela propõe um diálogo profícuo entre os bordados e apliques do interior de Minas Gerais, estado onde nasceu; o couro e os elementos do cangaço do sertão nordestino, região a que pertence o grupo de atores; e a cultura pop dos óculos ray ban do mundo contemporâneo. É na arena estilizada do circo que estes elementos díspares se encontram e festejam a liberdade da criação teatral.

Neste ensaio, com base em postulados teóricos contemporâneos, discutiremos o abrasileiramento de Ricardo III, visto ser Sua Incelença, Ricardo III uma apropriação regional realizada pela trupe Clowns de Shakespeare, por meio da inserção na cena de elementos do imaginário cultural do sertão nordestino, dentre eles o cangaço, a literatura de cordel e as incelenças. Objetivamos, ainda, evidenciar que a trupe utiliza unicamente o texto Ricardo III, traduzido por Anna Amélia Carneiro de Mendonça, como base do roteiro cênico. Apesar de algumas passagens terem sido substituídas por músicas do pop rock inglês ou do cancioneiro popular nordestino, e outras traduzidas em versos de cordel, aproximadamente 30% do texto de Shakespeare é mantido, com falas encurtadas ou sincopadas. As 3.609 linhas da peça histórica são reduzidas a cerca de 1.000 linhas, porém os principais solilóquios de Ricardo são preservados quase na íntegra, como veremos mais adiante. Em nossa análise da musicalização da cena, ilustraremos como se dá a integração entre texto, música e mise en scène.

Referências

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[1] A versão completa desse artigo foi publicado na revista  Scripta Uniandrade, v. 16, n. 3, p. 230-251, 2018.

  Professora do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da UFPR.