(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de março de 2012)
Dois famosos textos de Carlos Fuentes estão chegando ao meio século: o romance A Morte de Artemio Cruz e a novela Aura. Infelizmente, o primeiro não é reeditado há anos no Brasil (há duas traduções, e a mais recente, de Inez Cabral, foi lançada em 1994 pela Rocco[1]). Ainda bem que não acontece o mesmo com o outro, graças à excelente coleção “Pocket” da L&PM, onde encontramos a versão de Olga Savary (lançada originalmente em 1981).
Utilizando a segunda pessoa, um exercício de foco narrativo até hoje relativamente raro e que dá a seu relato um tom encantatório (“Você lê esse anúncio: uma oferta assim não é feita todos os dias. Lê e relê o anúncio. Parece dirigido diretamente a você, a ninguém mais. Distraído, deixa cair a cinza do cigarro dentro da xícara de café que estava bebendo neste café sujo e barato. Torna a ler…” e não paramos mais de ler), o escritor mexicano narra como o historiador (que sobrevive dando aulas) Felipe Montero é atraído por uma oferta de trabalho: organizar os manuscritos memorialísticos deixados pelo general Llorente. Num casarão antigo, quase que completamente às escuras, espremido entre modernidades urbanas, ele conhece a decrépita viúva, senhora Consuelo, refestelada no leito do seu quarto, com um coelho de estimação, cercada de arcas e ninhos de ratos. Ela lhe impõe uma condição: é preciso que more ali enquanto durar sua tarefa, muito bem paga.
Felipe, então, conhece a jovem Aura, que o serve e que o seduz com sua beleza ímpar. Aos poucos, ele vai descobrindo que, mais do que uma relação de parentesco, ela parece ter uma ligação sobrenatural com a velha senhora, a qual é muito mais velha do que seria possível. Ao mesmo tempo, fica cada vez mais difícil abandonar a casa, onde há uma atmosfera funesta, como se pode deduzir do seguinte trecho, no qual Felipe começa a ouvir miados:
“Chega seus ouvidos com uma vibração atroz, dilacerante, de súplica. Você tenta localizar sua origem: abre a porta que dá para o corredor e ali não escuta nada; esses miados escorregam do alto, da claraboia. Rapidamente você sobe na cadeira… e apoiando-se na estante de livros você pode alcançar a claraboia, abrir um de seus vidros, elevar-se com esforço e cravar o olhar nesse jardim lateral, nesse cubo de telhados e plantas emaranhadas onde cinco, seis, sete gatos—você não pode contá-los, não pode se manter ali mais de um segundo—encadeados uns com outros, se revolvem envoltos em fogo, desprendem uma fumaça opaca, cheiro de pelo queimado…”
Portanto, sejam quais forem os sortilégios que permitam a existência da bela Aura, eles também incluem a crueldade. e toda aquela atmosfera recôndita e evocativa de um passado épico e glorioso, começa a se tornar bastante ambígua, beirando a necrofilia.
Fuentes criou uma legítima herdeira das narrativas cujos mestres são Poe e Hoffmann, que se valem do umheimlich, termo que Freud utilizou para estudar a presença do estranho, do sinistro, na ficção que tende para o terror, e como essa estranheza se traduz numa fórmula narrativa que gera muitas interpretações. Não é o caso de associar Aura ao banalíssimo “realismo fantástico” que sempre foi muito associado ao boom hispano-americano[2]. Nada disso, é mais fácil identificar no enredo um cruzamento entre Henry James (aquela atmosfera toda saturada de evocação, como em Os papéis de Aspern) e as histórias góticas de H. P. Lovecraft do que os truques menos felizes, a meu ver, do autor de Cem anos de solidão.
E, curiosamente, em Aura, Fuentes prescindiu dos seus próprios truques. Sempre um autor do excesso, de obras marcadas por uma ambição desmedida (se Artemio Cruz ainda é relativamente equilibrado, o que dizer de monstrengos como Terra Nostra, Cristóvão Nonato, A vontade & a fortuna?), ele parece ter o prazer de provar, através da história da sedução de Felipe Montero pelo passado (no sentido mais literal), que poderia ser um escritor de textos perfeitos, exatos, precisos (e mesmo quem detesta suas obras geralmente poupa Aura). O que não deixa de ser uma malícia a mais num relato tão cheio de ardilosidades e aleivosias.
[1] A outra, de Geraldo Galvão Ferraz, teve edições pela Edinova, Abril Cultural e Círculo do Livro
[2] Hoje em dia aprecio bastante a obra de Garcia Márquez, mas não vejo contribuição nenhuma ao seu fascínio o lado ‘fantástico”, que é um elemento superficial, tanto quanto o é no romance de estréia de Isabel Allende, A casa dos espíritos. Na minha opinião, o único autor que usou legítima e talentosamente algo como um “realismo fantástico”, no sentido atribuído a Márquez ou Allende, foi o peruano Manuel Scorza em obras notáveis como História de Garabombo, o invisível (1972). O resto é badulaque.





