“Às vezes a gente se imagina incompleto e é apenas jovem“. – O visconde partido ao meio, p. 95
Ítalo Calvino é um autor que me atraiu às avessas. Meu primeiro contato com ele foi com uma adaptação teatral de “O Cavaleiro Inexistente”, e o primeiro livro dele que me caiu nas mãos não era uma ficção, mas uma coleção de crônicas intitulada “Coleções de Areia“, que resenhei neste espaço. E minha curiosidade sobre a criatividade do autor que criou a história daquela peça finalmente se saciou com o recente lançamento, pela Companhia de Bolso, de O visconde partido ao meio.
“O visconde partido ao meio” faz parte da trilogia “Nossos antepassados” , formada também por O Cavaleiro Inexistente e o O Barão das árvores. Mas posso afirmar que conhecer as outras obras da trilogia não é necessário. “O visconde…” é uma obra auto-suficiente, com enredo beirando ao fantástico e uma interessante crítica ao mundo moderno. Tudo regado a muito, mas muito humor.
A história se passa em Terralba, para onde, depois de mutilado por uma bala de canhão, o visconde retorna, sua personalidade completamente alterada. Ele volta, literalmente, pela metade: um braço, uma perna, meio nariz, meia boca. Como Jekyll e Hide, o bem e o mal separados. Em tom de contos de fadas, Calvino nos mostra a vida dos habitantes da pequena Terralba após a chegada do lado mau do visconde. Seus pequenos atos de crueldade, sua obsessão em fatiar tudo ao meio, até que a outra metade é descoberta. E esta, de tão boa, é praticamente insuportável.
O próprio autor nos dá uma ideia clara do que quis com essa divisão bem-mal no prefácio. Suas palavras mostram a essência da obra em si, mas aconselho aos leitores que pulem a apresentação e só retornem a ela após lido o livro. É uma maneira interessante de debater com o autor sobre suas intenções ao escrever a história do Visconde de Terralba. Mas posso antecipar que Ítalo Calvino quis com essa história divertir o leitor, missão esta que ele cumpre com louvor.
O visconde partido ao meio – Ítalo Calvino
Título original: IL VISCONTE DIMEZZATO (POCKET)
Tradutor: Nilson Moulin
104 páginas
Selo Companhia de Bolso
Preço sugerido: R$ 16,00
Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras
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