02
Jan14
Maria do Rosário Pedreira
Ora então sejam muito bem-vindos a este vosso blogue em 2014 (desejo, aliás, a todos os Extraordinários um bom ano, pelo menos em leituras). Para não quebrar a regra, falarei hoje do calhamaço que me ocupou grande parte das férias, o romance da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie intitulado Americanah, que conta, ao longo de setecentas páginas, as histórias paralelas de Ifemelu e Obinze, uma rapariga e um rapaz nigerianos que se apaixonaram no fim da adolescência e são, em tudo, o par perfeito. Num período de grande agitação em Lagos, com manifestações e greves sucessivas na Universidade, Ifemelu decide, com a ajuda de uma tia emigrada, tentar a sua sorte com uma bolsa de estudos nos EUA, onde se sente, pela primeira vez na vida, uma negra (as páginas sobre o que fazer aos cabelos para arranjar um emprego decente são especialmente curiosas e divertidas). Obinze, embora mais tarde, parte também do seu país para Londres, onde começa por limpar retretes e acaba deportado por causa de um casamento de conveniência que o ajudaria a obter a residência. Americanah é, pois, um livro sobre os emigrantes africanos nos EUA e na Europa, lugares onde parecia que os sonhos dos dois jovens facilmente se concretizariam, mas, afinal, tudo é mais difícil do que na terra atrasada donde vieram. E é também um romance sobre afinidades, identidade, política e amor, pois quinze anos de separação não bastam ao casal de namorados para se esquecerem um do outro e entenderem qual o lugar onde realmente podem ser negros e felizes, apesar de o regresso à pátria trazer um outro olhar, muito mais crítico e simultaneamente mais comodista sobre os costumes de uma África ainda muito crua. A América não sai lá muito bem do retrato, nem a Nigéria, mas, nestas questões, nem podia ser de outra maneira. São muitas páginas, bem sei, mas lêem-se de um fôlego.