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Nov22

Maria do Rosário Pedreira

– Deixo-vos isto aqui porque o tempo atraiçoa

e atraiçoa de facto, as nuvens sempre a mudarem, o catavento da igreja indeciso

– E agora?

a minha mãe sentada, a olhar para ontem no banco quase sem pintura a que faltava uma tábua, sempre na companhia de uma dúzia de pombos de mãos atrás das costas, com um rebuçado escondido lá dentro, às vezes, mesmo crescida, tinha a certeza de ir encontrar o meu pai na rua, igualzinho ao que me lembrava dele mas o aspecto de quem se aproximava alterava-se de súbito, pumba, e nunca era ele, outras feições, outros gestos, outra roupa, nenhum aceno claro, nenhuma careta cúmplice, nenhum sorriso sequer, mirava-me surpreendido

– Aconteceu-te alguma coisa garota?

de modo que eu a virar logo a cabeça, envergonhada

– Desculpe

isto aos doze, treze, quinze anos, na volta da escola, isto quando comecei a trabalhar

– Dizem que o teu pai é rico

uma fábrica, duas fábricas, laboratórios, camionetas, dúzias e dúzias de empregados, a Dona Virgínia

(- Sou a Dona Virgínia, sou a Dona Virgínia)

para a minha mãe

– E deixou-as assim?

e depois eu o emprego numa loja, e depois eu o emprego numa creche, e depois eu o emprego num escritório, e depois um colega bom rapaz, e depois outro colega bom rapaz, por sinal ruivo (há sempre um ruivo em cada escritório, como há sempre um gordo) e depois não era aquilo, não era aquilo, não era aquilo, e depois eles, sem entenderem, tentando agarrar-me o braço

– Deixarmos de nos

(como há sempre um de óculos)

– Deixarmos de nos ver porquê?

António Lobo Antunes, O Tamanho do Mundo