Fotografia da minha autoria

Gatilhos: Preconceito, Morte/Luto

O Alma Lusitana (clube de leitura), em 2022, funcionava por temas. Quando defini, para janeiro desse ano, livros que dão voz a minorias, a obra da Telma Tvon foi uma das minhas sugestões, mas só agora, graças à sua reedição, é que a consegui descobrir.

uma questão de igualdade e identidade

Um Preto Muito Português é a história de João, mais conhecido por Budjurra, que é filho de «cabo-verdianos que vivem há muito em Portugal», neto de «cabo-verdianos que nunca conheceram Portugal», bisneto «de holandeses que mal conheceram Portugal» e de africanos «que muito ouviram falar de Portugal». Vive em Lisboa, embora não o reconheçam como alfacinha, e vai-se debatendo sobre a sua identidade.

Os capítulos dividem-se por pensamentos e inquietações do protagonista e, em simultâneo, levam-nos a vivenciar as suas aventuras, ainda que não possamos sentir tudo na pele. Seja como for, há algo que me chamou logo à atenção: o facto de, demasiadas vezes, ser tratado como estrangeiro no próprio país. Além disso, achei curiosa a postura tão antagónica dos irmãos em relação às mesmas circunstâncias.

«Até há pouco tempo julgava que ele detestava a sua terra natal, mas agora aprendi que é o sufoco da saudade que impede a palavra de ter lugar»

A escrita tem laivos de humor, mas confesso que não me arrebatou. No entanto, é inegável que nos coloca ao lado de Budjurra, é inegável que nos faz compreender as suas angústias e hesitações, até porque a personagem conversa connosco e inclui-nos no problema (e, em boa verdade, nós fazemos parte dele). O seu relato não tem qualquer filtro, mas tem uma visão muito apaziguadora da realidade. E isso acontece, creio, porque ele se recusa a aceitar que a igualdade é uma utopia, como na canção.

Um Preto Muito Português tem uma abordagem descomplicada, porém, muito pertinente, sobre questões de identidade, racismo, estereótipos e desigualdade de oportunidades. Com apontamentos de poesia e um vínculo à música, sobretudo no Rap, onde procurou uma forma de se reencontrar, vai-se apercebendo dos preconceitos que o tornam invisível e que o fazem duvidar se este é o seu lugar. Mas é. Sê-lo-á sempre. Não só pela sua humanidade inspiradora, mas também pelas raízes.

Nota: Esta publicação contém links de afiliada da Wook e da Bertrand