Em quase todos os festivais literários, há uma mesa-redonda cujo tema se prende com o momento exacto em que um escritor percebeu que escrever era o que queria fazer da vida. Já vos contei que Vargas Llosa contou um dia no México que descobriu que não estava sozinho nos seus problemas e tristezas ao ler na adolescência livros que falavam de outros que também sofriam, e que esse foi o primeiro passo para desejar viver outras vidas e escrevê-las. Partilhei igualmente a história de como Eduardo Halfon começou a escrever para aprender a língua do seu país, pois crescera nos EUA, e de engenheiro se tornou escritor. Esta semana, ouvi o escritor espanhol Miqui Otero ler no Instituto Cervantes um texto belíssimo onde, entre outras coisas, falou do momento em que despertou o seu desejo de viver outras vidas. Estava em casa com os pais e ouviram uma terrível explosão. Pensaram tratar-se de uma bomba, pois eram ainda os tempos dos assassínios da ETA, mas afinal estavam enganados: tinha sido uma garrafa de gás que explodira na casa em frente, mas os danos foram tantos que o rebentamento arrancou praticamente toda a fachada da vivenda. Assim, quando Miqui olhou para a casa vizinha pela sua janela, o que viu foi uma espécie de casa de bonecas, o interior com os dois andares e as divisões completamente à mostra: os quadros nas paredes, os móveis, os candeeiros no tecto, os pratos nas prateleiras, as almofadas nas camas. E, ao ver tudo isso minuciosamente, entrou na verdade na casa do vizinho e percebeu que queria saber como viviam as outras pessoas, que queria estar nessas vidas. Escrevendo, claro.
Querer escrever
Texto originalmente publicado em Horas Extraordinárias