20
Jan23
Maria do Rosário Pedreira
A primeira visita de Angelica na situação de noiva à família Salina foi regulada por uma encenação impecável. O comportamento da rapariga fora tão perfeito que parecia sugerido gesto por gesto, palavra por palavra, por Tancredi; mas as lentas comunicações do tempo tornavam insustentável esta eventualidade, tendo de se recorrer a uma hipótese, a de sugestões anteriores ao noivado oficial; hipótese arriscada até para quem conhecesse melhor a previdência do Principezinho, mas não totalmente absurda. Angélica chegou às seis da tarde, vestida de branco e rosa; as sedosas tranças pretas cobertas por um grande chapéu de palha ainda estival onde cachos de uva artificial e espigas douradas evocavam discretamente as vinhas de Gibidolce e os celeiros de Settesoli. Na sala de entrada, largou o pai; fazendo esvoaçar a ampla saia, subiu ligeira os nada poucos degraus da escada interior e lançou-se nos braços de Dom Fabrizzio; deu-lhe, nas patilhas, dois belos beijos que foram retribuídos com sincero afecto; o Príncipe demorou talvez um instante mais que o necessário a aspirar o aroma de gardénia daquelas faces adolescentes. Depois, Angelica corou, retrocedeu meio passo: «Estou muito, muito feliz... [...]
Giuseppe Tomasi di Lampedusa, O Leopardo, tradução de José Colaço Barreiros