imagem/The Ringer (reprodução) É inegável que o caso Dylan fez Woody Allen ser boicotado por uma Hollywood em efervescência. Suas últimas produções americanas caíram em desgraça Gabriel Solti Zorzetto*, Especial para Fina Allen v. Farrow, documentário da HBO dividido em quatro episódios, tinha um enorme potencial, mas não conseguiu desvincular-se de uma mera peça de propaganda em defesa de Dylan Farrow e sua mãe Mia, atriz com quem o cineasta Woody Allen foi casado por mais de uma década. A produção tem como égide um relato sustentado por Dylan, uma das várias filhas adotivas do casal, que acusa o icônico cineasta de ter abusou sexualmente dela em 1992, quando a jovem tinha 7 anos. O abuso teria acontecido no sótão da casa da família Farrow em Connecticut. Duas investigações foram abertas, uma no Estado de Connecticut e outra no Estado de Nova York, mas nenhuma considerou Allen culpado (uma delas, inclusive, apontou que Dylan poderia ter sido treinada pela mãe a contar uma mentira sistemática). A relação de Woody e Mia foi por água abaixo quando o diretor se apaixonou por Soon-Yi, outra filha adotiva de Mia, com quem é casado até hoje. “Esses documentaristas não tinham interesse na verdade. Em vez disso, passaram anos colaborando por meios ilícitos com os Farrows e representantes para montar um trabalho mentiroso,” afirmou Woody Allen em nota, condenando a conduta dos premiados diretores Amy Ziering e Kirby Dick pela forma como trataram sua versão dos fatos. Em entrevista recente ao programa Conversa com Bial, da TV Globo, Allen também falou sobre a polêmica, destrinchada por ele em seu mais novo livro de memórias. “Estava escrevendo a história da minha vida, e quando chegou a esse ponto, escrevi conforme aconteceu. Tentei ser o mais fiel possível, e se alguma coisa podia ser vista como ambivalente, tentei usar a perspectiva de outra pessoa. Citava psiquiatras, juízes, investigadores, todos os envolvidos, para que não parecesse que era eu dizendo algo. Queria apenas contar uma história sem que as pessoas achassem que, por ser a minha versão, sou uma pessoa maravilhosa e tal (…) Estou sendo boicotado, mas eles estão cometendo um erro. A Hachette devia ter publicado meu livro, mas havia pessoas na organização que eram contra. A mesma coisa com atores que falam que se arrependem ou que nunca trabalhariam comigo. O que posso dizer? Estão cometendo um erro. As pessoas cometem erros e esse é mais um deles.” Amy Ziering, co-diretora do documentário, negou ter ignorado o lado de Allen e afirmou estar disponível a gravar um quinto episódio. “Sua perspectiva, seu testemunho em primeira pessoa está incluído ao longo da série. Temos sua própria leitura de voz, sua própria escrita, suas entrevistas coletivas em suas palavras, seu depoimento no tribunal. Seu lado está representado. E ele é bem-vindo para fazer uma entrevista [conosco]. Oferta permanente. Temos certeza de que a HBO o faria faça um quinto episódio. Estamos aqui. “ Ao contrário de Leaving Neverland, documentário similar da HBO sobre os abusos do astro da música pop Michael Jackson, Allen v. Farrow peca desde o primeiro episódio ao julgar Allen como culpado. Nesse mesmo as recentes declarações de Moses Farrow, o único filho que ficou contra Mia e Dylan, foram devidamente abordadas. O jovem defendeu Allen e acusou a mãe de ter sido cruel em vários momentos de sua infância. Na realidade, foram prontamente desprestigiadas pelos demais filhos – em especial o jornalista Ronan Farrow, conhecido por ter se engajado no processo de desmascaramento de Harvey Weinsten. É inegável que o caso fez Woody Allen ser boicotado por uma Hollywood em efervescência. Suas últimas produções americanas foram engavetadas pela Amazon e muitos atores já o condenaram pela situação. Por conta disso, foi obrigado a rodar na Europa o regular Rifkin’s Festival, seu filme mais recente. O Velho Continente, aliás, sempre o recebeu de braços abertos e foi cenário para alguns dos mais memoráveis trabalhos da filmografia de Allen, como Midnight In Paris, To Rome With Love e Vicky Cristina Barcelona. *É jornalista, autor de Oswaldo: a trajetória de um dos maiores treinadores do Brasil (2020)