por talesforlove, em 23.04.23

No Dia Mundial do Livro um pouco da pessoa dentro de Pessoa.

Foi o amigo de Fernando Pessoa, Carlos Queiroz, quem, após a sua morte, se referiu pela primeira vez, na revista Presença, às cartas de amor de Pessoa a Ophélia Queiroz (a sua Ibis...). 

Há quem diga que este poema foi escrito a pensar nela:

Por trás daquela janela


Por trás daquela janela

Cuja cortina não muda

Coloco a visão daquela

Que a alma em si mesma estuda

No desejo que a revela.

Não tenho falta de amor.

Quem me queira não me falta.

Mas teria outro sabor

Se isso fosse interior

Àquela janela alta.

Porquê? Se eu soubesse, tinha

Tudo o que desejo ter.

Amei outrora a Rainha,

E há sempre na alma minha

Um trono por preencher.

Sempre que posso sonhar,

Sempre que não vejo, ponho

O trono nesse lugar;

Além da cortina é o lar,

Além da janela o sonho.

Assim, passando, entreteço

O artifício do caminho

E um pouco de mim me esqueço

Pois mais nada à vida peço

Do que ser o seu vizinho.

25-12-1930

Ao ler este poema, também nós, um pouco nos esquecemos do nosso ser...

flores amarelas pt.png

Fontes:

http://arquivopessoa.net/textos/148

"Cartas de Amor a Ophélia Queiroz", organização, posfácio e notas por David Mourão-Ferreira (Janeiro 2009), Editora Ática

Fica o convite à participação no Concurso Literário Natureza.

Até breve.