No centro da sala, o casal dança. A atenção de um se prende aos olhos do outro. Realizam um passo, e a moça parece se afastar, mas o homem a segura e a atrai para si, como um planeta puxa a sua lua. Os movimentos se adivinham diáfanos, apesar da dureza improvável do mármore. Mesmo paralisados, os pés se movem de forma impossível. O Tempo parou ao redor do casal; não existe mais nada, só o passo de dança.

E ninguém sabe disto, pois a plateia que os acompanha está completamente cega.

"A dança de Zéfiro e Flora", de Giovanni Maria Benzoni
“A dança de Zéfiro e Flora”, de Giovanni Maria Benzoni

Muitos e muitos anos atrás, fui a um espetáculo de teatro prestigiar uma amiga. Cheguei atrasado e, para não atrapalhar os atores e o público, esgueirei-me pela porta e me sentei na última cadeira da última fila, longe de todos. A peça transcorria, alguns minutos já tinham passado. Assim que meus olhos se acostumaram com a falta de luzes, notei que era o único espectador. Graças à minha discrição e à escuridão da sala, sequer a minha presença fora notada. Em um primeiro momento, confesso que fiquei chateado; quando alguém pensa em uma apresentação, sempre pensa também no público alvo, e estar sem público deve ser muito chato. No entanto, acabei me distraindo com a peça, e levei algum tempo para perceber que eles estavam interpretando não para os outros, mas para si mesmos. Poderia esperar brincadeiras e desleixo das pessoas que não precisam mais provar nada para ninguém, mas eles foram muito sérios, interpretavam com veracidade e garra. Ainda assim, havia uma nota de estranheza, que só entendi alguns dias depois: eles estavam se despedindo da peça e dos personagens. Uma apresentação de meio de temporada sem público indicava o término do seu ciclo de vida. Continuar seria só perder tempo e dinheiro.

Por qual motivo dançamos, escrevemos ou interpretamos? Para que outros vejam e se encantem ou pela necessidade quase ilógica de buscar satisfazer aquilo que corrói nossas entranhas? Nunca entendi o motivo pelo qual me jogo nesta pira de onde não conseguirei sair intacto e muito menos ser feliz, mas sempre disse que faço isto por não ter opção.

Poderosas alegorias se desprendem desta foto. O casal faz a dança perfeita, mas ninguém olha, ninguém sabe. Os outros são tão necessários assim para preservar o momento? Precisamos realmente de um público? Ou basta o casal saber que dançou a dança mais importante das suas vidas, lembrar de cada detalhe, de cada passo, de cada ondulação? É a divisão mais estranha de todas: as pessoas se sentem mais felizes “mostrando” do que “sendo”, mesmo que mostrem o que não são, mesmo que percam o momento de ser.

Também existe uma alegoria de toda a Humanidade. Maravilhas acontecem ao nosso redor, toda hora, todo dia, o tempo inteiro. Ainda assim, concentrados em nós mesmos, deixamos de olhar ao redor e, assim, o inefável nos escapa como areia por entre os dedos. Andamos em um mundo de pessoas voluntariamente cegas para as suas maravilhas.

E a melhor alegoria de todas ainda é o fato de que nós estamos sutilmente representados na foto. Pois Zéfiro e Flora estão todos os dias dançando na nossa frente, quando as copas das árvores se movem em brincadeiras com o vento, realizando as mais diferentes manobras, em um constante roçar e suspirar.

Embaixo da Flora que dança com o vento Zéfiro, aquele que traz consigo a brisa suave e frutificante capaz de limpar o calor abrasivo do céu com uma lufada de esperança, passam as estátuas cegas, concentradas no seu próprio universo, desconhecendo a magia que acabou de acontecer. Mas isto não impede a dança de continuar, pois o público não interessa, e sim o sentir, a vibração, o sorriso. Isto é o que importa.

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Publicado por Gustavo

Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo