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Na HQ, quadrinista Frederik Peeters traz principal conflito do artista hoje: ser produtor e marqueteiro de uma só vez

Matheus Lopes Quirino
Editor da Fina

Oleg é um sonhador que, aos 45, vive um bloqueio criativo. Ele é um afortunado que vive de sua arte há 20 anos, desenha novelas gráficas e quadrinhos, tem uma obra de sucesso publicada, A Partilha do Mundo, que seu público cobra continuação. Ele está em dúvida, a bem da verdade, não tem interesse em expandir a saga, que gira em torno de uma protagonista feminina que tem traços masculinos, como todas as suas personagens mulheres.

Quando está a criar, fecha-se em seu “convés”, um estúdio bagunçado que não tem internet. Desplugado das redes sociais, o cartunista, que é um exemplar anacrônico dos artistas afeiçoados ao analógicos, não sabe direito para que serve um Instagram repleto de seguidores, recusa selfies, mas se força a aprender um pouco da lógica cibernética de hoje. Ele, inclusive, devaneia ficções científicas e distopias, coloca no papel algumas ideias – que não são boas. Sua companheira, Alix, uma professora de história da arte frustrada e workaholic é também sua melhor amiga, e a crítica de quem ele é todo ouvidos.

Nesta banda desenhada, roman à clef do quadrinista suíço Frederik Peeters, é destrinchada a crise de meia idade das duas personagens protagonistas, tanto Oleg quanto Alix têm momentos de desesperança profunda não só com a sociedade, mas com o futuro. Na escola em que ela trabalha, os alunos usam fones de ouvido por baixo dos cabelos para não escutarem suas aulas. Oleg encara algo do tipo quando vai palestrar em uma sala de aula, expondo clichês clássicos que são rotina para os artistas, em perguntas como: “Você é rico?”, “É famoso?”, e a tão temível: “Quantos seguidores você tem no Instagram?”.

O quadrinho acompanha um recorte da vida do artista, homem de tem uma vida confortável, cujas ameaças não são iminentes perdas materiais, como numa realidade mais emergente, mas perdas intelectuais. Questiona-se, por exemplo, o papel do livro na cultura de uma geração e o poder das redes sociais, que são dominantes em cenas em que ele está em trânsito – no aeroporto, trem, metrô, ruas, restaurantes, bancos de praças, todos estão acessando redes sociais, serviços de streaming, entre outras telas.

Oleg tenta projetar uma HQ distopia, crítica, mas não cola. Sua mulher, que sabe muito bem usar do sarcasmo, questiona um tema já conhecido dos autores de HQ, o banal e cotidiano, na auto ficção, como gancho e tema para uma história. Tanto na história do quadrinista, história dentro da história, quanto no livro em si, Oleg, o quadrinista segue à risca a sugestão da personagem, se é que, na vida real, não tenha ocorrido algo do gênero.

Com o problema de saúde da mulher, o maior perrengue da trama, Oleg vê no infortúnio a chance de vislumbrar a graça da vida. Parafraseando Nietzsche, que ele cita, “Ame sua vida, ame seu futuro, ame sua dor”. Entre a cruz e a espada, Oleg tenta se recompor em um mundo onde o analógico, aos poucos, perde para o digital, e questiona, inclusive com sua filha, as novas relações que se ensaiam. Ele se mantém firme no ofício, com sua companheira se recuperando, não anseia a fama, tampouco a obsolescência, é um artista que está em pleno olho do furacão do próprio ofício, de ver e ser visto, para vender e se popularizar. Nesta tarefa, os olhos, o tato, são secundários, Oleg, como tantos artistas, resiste sucumbir pelas telas e um par de cliques. Nunca ser obsoleto foi tão cobiçado. 

Oleg

Frederik Peeters

Tradução de Fernando Scheibe

Nemo

2020

184pp

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Publicado por Matheus Lopes Quirino

Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino